Os desejos são as fantasias

A infinidade dos desejos supera em muito as necessidades. Os desejos são as fantasias, enquanto as necessidades são o real. O melhor é que um não engolfe o outro, de modo a continuarmos sonhando com nossa pulsão de libido nos tensionando ao mesmo tempo em que as realidades são continuamente formatadas pelo nosso superego. Matar o desejo é ceder a Tânatos, é nos paralisarmos/ engessarmos dentro do palco social em que estamos mergulhados.

Nosso desejo de sermos deuses não deve impor que sejamos Ícaros, assim como o real não nos deve constranger a sermos Sísifos. Dentro dessa mediação, na qual nossos sentimentos e experiências compõe a maior parte do que somos, acabamos assumindo nossas facetas, nosso destino, nossa predestinação. A questão é que esse nosso destino e essa predestinação, que para a maioria é simplesmente um dado empírico, tem profundas implicações sociais. Somos todos um produto social, o que não mata nossa vontade nem deixa de nos impulsionar à frente em nossos objetivos, sejam elevados ou torpes. Libido. De um lado, se não podemos prever os acontecimentos em nossa vida, por outro temos opções, temos escolhas. Mas essas são decorrentes de imprintings culturais, portanto são socialmente mediadas.

Fossemos usar parâmetros cartesianos, diríamos que em contraponto ao desejo se encontra o racionalismo, derivado do iluminismo europeu do século XVIII e XVIII. Contudo, tal não é tão simples de reduções precárias, conforme vem nos demonstrando questões de descontinuidade e de fortes interações que hoje temos bem mais condições de entender, porque as vivemos. Conexões ocultas, de Fritjof Capra, nos alerta sobre tais interações. Ocorre que essencialmente não há nada no desejo ou na racionalidade que seja ruim ou destruidor, assim como não existe demérito na ambição ou em qualquer dos pecados judaico-cristãos tão severamente aprendidos e, ao mesmo tempo, tão relegados no cotidiano da vida, desde que haja temperança; mesmo a violência é uma decorrência da condição humana e como tal deve ser vista, e não inutilmente exorcizada. O humano não pode conviver sem as grandiosidades e as misérias de sua própria condição.

Somos portanto instáveis, e mais ainda a partir do momento em que não temos condições de entendermos nossos desejos e nossas necessidades. Com o decorrer do tempo passamos a ser pessoas mergulhadas no mundo do espetáculo e do consumo; assim, somos sexuais, ao invés de sensuais;  agressivas ao invés de solidárias, recebendo verdades pasteurizadas e edulcoradas ao invés de sermos reflexivos e críticos.

A vida passa a ser um show, e temos de ter nosso minuto de fama, conforme disse Warholl. De certo modo, nossa humanidade e nossos sentimentos se tornaram um casulo. Talvez por isso sejamos tão sensoriais e tenhamos desenvolvido de maneira notável nosso pensamento mágico, como dizia Freire. Somos seres continuamente em construção, mas é exatamente isso que o mundo do consumo não quer. Melhor, para ele, é que nos tornemos cada vez mais acríticos e cartesianos. Conhecer para dominar é uma estratégia bastante utilizada. Somos mapeados, e se há alguma porta de saída não é a do aeroporto.

Embora tenhamos esquecido, talvez tenhamos de acessar nossa humanidade, que se encontra em stand by, e nossa capacidade de pensar, de (re) fletirmos sobre nós mesmos e sobre os outros. Talvez devamos nos dedicar a matutar, a recebermos com senso crítico o que nos chega, buscando misturarmos racionalidade e sentimentos em humanidades. Afinal, se não somos Medéia, que não sejamos apenas um dado tecnológico, um consumidor customizado.

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