Política e caldo de galinha

É claro que os leitores eventuais sabem que política vem de polis, cidade, ou seja, a política é a arte de bem administrar uma cidade. A própria palavra tem o signo da complexidade, porque os interesses são conflitantes; muitas vezes, o que importa a uns não é o que importa aos demais. As relevâncias e as necessidades são distintas, dependendo do cenário social e dos seus atores, e a política brota desse meio, sendo, portanto, uma atividade regida pelo tensionamento, pela contradição, pela maior ou menor capacidade da afirmação de poder. Em nosso sistema político-institucional delegamos a alguém a capacidade, o mandato para que esse alguém fale por nós, nos represente e busque estabelecer os nossos interesses ou outros interesses com os quais concordemos. O conflito, portanto, nasce daí, pelo menos no que importa ao homem enquanto ser político. É óbvio que as necessidades de quem passa fome e vive abaixo da linha da miséria não são aquelas de alguém que tem uma vida confortável: no entanto, ambos podem votar no mesmo candidato, mesmo que haja um oceano entre o cotidiano dos dois. No caso, o candidato representa o desejo, ou pelo menos parte do desejo social de ambos. Se, no campo estrito da lógica histórica, o menos afortunado e aquele mais privilegiado do ponto de vista social teriam muitos motivos para uma convivência não pacífica, a eleição de um candidato pode mediar tais diferenças, no que tanje à representatividade, àquilo que ambos querem. No entanto, na prática do mandato, tais divergências irão surgir de modo mais palpável e, provavelmente, menos palatável.

O eleitor deposita esperanças e quer que sua visão social seja privilegiada em relação às demais; como o jogo político se perfaz dentro dos tensionamentos e das multiplicidades dos desejos, o não atendimento, pelo candidato, aos pleitos de seus eleitores traz uma grande frustração. Aquela mesma do pai que limita o filho quando este não quer limite. Há, porém, uma enorme diferença entre ambos, pois se o pai detém, em tese, o poder de determinação, de mando, seja pela via da autoridade ou pela via do autoritarismo ou mesmo do desmando, o político não possui tal poder; contrariamente, para realizar o que se propõe depende, em princípio, de seus pares, de composições partidárias, de cenários muitas vezes nebulosos e das suas reais possibilidades de negociação e de flexibilização de interesses que se encontram díspares, contraditórios e normalmente em conflito. Se considerarmos a complexidade do mundo político veremos que não é uma atividade para a qual todos estejam preparados; assim, poucos dos eleitores que tanto reclamam dos seus próprios eleitos teriam efetivas condições avaliativas, discursivas, dialógicas, culturais e uma visão estratégica coerente para exercerem tal função pública. O mandato não é algo simples de ser realizado no cotidiano, pois não implica necessariamente na satisfação dos desejos dos mandatários. Talvez esse seja o primeiro vetor de insatisfação quanto ao jogo político.

“Os políticos prometem mas não cumprem”, tem muito mais a ver com as dificuldades em exercer um cargo dessa ordem e alcançar os interesses de seus correligionários do que procurar frustá-los. Qual político não gostaria de alcançar o reconhecimento de seus eleitores? Do ponto de vista meramente pessoal, seria continuar desfrutando de uma posição social de privilégio o que não é desprezível ou desprezável, como queiram. Tal posição é a conseqüência prática e visível da outorga de um mandato inicial: alguém confiou-lhe uma tarefa a qual nem sempre é possível cumprir, pelo próprio cenário teórico em que isso deva ocorrer, independentemente de sua própria vontade, até mesmo pela oposição que recebe de seus pares. Por isso é da natureza do cargo político negociar interesses, próprios ou de terceiros, participar de alianças nem sempre duradouras ou éticas ou mesmo tomar atitudes que nem sempre são consideradas como positivas por parte de seus eleitores. Às vezes há alternativas melhores, outras não; de qualquer modo, o político, o votado é aquele que deverá responder na integralidade pela sua ação ou inação, pelos votos seus e pelos seus opositores.

Uma das faces que ritualiza o papel do político é a inversão do que se entenda por representatividade. Em um mandato, há um mandante e um mandatário. O político, mandatário, deve buscar cumprir o seu mandato, ou seja, deve procurar viabilizar o que os seus votantes, os seus eleitores, os mandantes querem dentro do cenário político institucional. Contudo, o comportamento de uma boa parte dos mandantes é o de pedir, de solicitar, de requerer. Há, portanto, uma inversão consentida e tácita, mesmo porque, na maior parte dos casos, o eleitor não tem acesso aos canais de poder ou não tem força política para tanto. A criação do senso comunitário muitas vezes é nublada pela ditadura do individualismo e do consumo. Se o eleitor não conhece a força que tem em seu voto, o político a conhece sobremaneira.

Uma das situações que faz com que o votante não saiba avaliar o poder de seu voto é a sensação do grau de  volatilidade desse poder dentro de um universo relativamente grande, considerando-se a massa de votantes. Visto assim, o voto passa a ser algo quase que desprezível, mas seu somatório é bastante considerável.

Um exemplo razoável: em 2004, no segundo turno da última eleição para prefeito de Porto Alegre concorreram Fogaça, pelo PPS e Raul Pont, pelo PT. Fogaça teve 431.820 votos e Raul Pont teve 378.009 votos. Pois muito bem: não importa se você votou em Fogaça, em Pont, anulou o voto ou seu voto foi nulo. Qual a força efetiva de seu voto? Ou, vendo de outro modo, quando você votou para vereador de Porto Alegre, qual foi o seu movimento em relação ao seu escolhido? Se foi nenhum, é evidente que o candidato “escapou” de suas mãos. Ele não o conhece, você faz parte de uma massa de votantes, assim como o número que consta em uma cédula de identidade, o número de um cartão de crédito, o número do seu telefone ou do seu CPF. Pronto, acabou. Não há identificação entre aquele que vota e o seu escolhido; o político votado não sabe a cara do seu eleitor, a não ser dos mais próximos. Quando um político tem uma “bandeira” de luta, ele está dizendo a uma massa indistinta que ele lutará por essa ou aquela causa, portanto, conclama a que, através do voto, essa massa se identifique na hora da votação. Até porque, após a mesma, terá dificuldades enormes em saber quem votou ou quem não votou em tais ou quais bandeiras. A democracia, sem a participação do cotidiano, torna-se um show de aparências e de mídia.

Assim, dizer de participação política não é apenas gritar aos quatro ventos na esquina que meu candidato ganhou ou coisas do gênero, mas, sim, participar efetivamente de movimentos sociais com natureza bastante específica ou filiar-se a algum partido político, exercendo sua cidadania de modo mais pleno.

Como o votante não sabe em quem votou, porque votou em uma projeção do que desejaria, assim também o político não sabe efetivamente quem o considerou como uma opção em meio a tantos outros nomes. O caminho que mais tem sido trilhado, então, é um só: agrada-se aos meios de comunicação, adere-se aos discursos do bem comum, do óbvio, e procura-se diminuir os contrastes e as diferenças essenciais entre os partidos políticos. Pratica-se o discurso da mais rasteira obviedade, e toma-se um ar de conciliação. Todos querem conciliação, a tv, os rádios, os eleitores não suportam mais tanta violência, tanto bate-boca, tanta vituperação, tanta baixaria. Todos querem apenas uma coisa: chegar em casa e botar os pés pra descansar. Nada mais reconfortante nessa hora, do que praticar-se o reducionismo alienante, aquele mesmo que diz que se você tiver o cartão de crédito “A” ou “B” ou “C”, será, per secula seculorum, feliz, happy, de bem com a vida, talvez até mais magro. O discurso da conciliação fácil para o povo é isso: um belo caldo de galinha.

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