Reflexões sobre a educação e as borboletas

 Admiro muito as borboletas. Elas são a expressão da capacidade de superação do ser vivo.

Nascem larvas, indefesas. Vão, gradativamente, alimentando-se. Confeccionam seu casulo. Sofrem uma transformação. Viram borboletas. Belas borboletas, de asas coloridas. Polinizam as flores, encantam os olhos, reproduzem e morrem.

Mas sua imagem permanece nos olhos de quem as vê com a alma.

Nós seres humanos, mortais, somos assim como as borboletas. Nascemos indefesos. Necessitamos de carinho, alimento e principalmente de figuras que nos eduquem. Nada sabemos sobre os perigos da vida, do mundo. Somos cotidianamente amparados pelos adultos que nos rodeiam. Sofremos diretamente sua interferência. Eles são o nosso espelho!

Sonhamos com o futuro como talvez a larva sonhe com a borboleta, sem na realidade saber o que nos espera. São anos de observação, experimentações e desafios.

Primeiro a família, com suas regras cheias de afeto (ou falta dele). Depois a escola com suas normas, rotinas e lições. É preciso educar cognitivamente e moralmente  o indivíduo.É preciso regrá-lo para vida em sociedade, para convivência pacífica e adequada aos espaços sociais a que pertence ou pertencerá. É necessário alfabetizá-lo no mundo das letras e dos números para que possa sobreviver na nossa sociedade “pós-moderna”. Chama a atenção que devemos sempre educar com afeto e quase nunca ouvimos a expressão “para o afeto”. Desenvolvemos nossas inteligências cognitivas, morais, sociais e não nos preocupamos com a inteligência emocional. Não somos educados para frustração, para o erro, para perda. Quando estas situações se apresentam em nossa vida não sabemos como lidar com elas. Não aprendemos isto na escola e na família.   A alternativa é vivermos constantemente frustrados pelo que não tivemos, pelo que não vivemos, pelo que não fomos.

Ao analisar a fala de muitos adultos que não tiveram a possibilidade de frequentar a escola a frustração e o conformismo são uma constante. “Eles não mereciam” ou “Deus não quis” são expressões costumeiras. Essas pessoas simples, de fala carregada de sentimento, muitas vezes se culpam por uma questão que extrapola a sua vontade: a sobrevivência e a exclusão.

É preciso sobreviver nesta sociedade capitalista. Desta forma a possibilidade de ingresso no mercado de trabalho significa para família uma renda a mais e uma despesa a menos. Esta é a lógica. Desta forma crianças e adolescentes são “enviados” para o trabalho como babás, empregadas domésticas ou auxiliares de obra, cada vez mais precocemente. Engana-se quem pensa que isto é coisa do passado. Basta estar atento aos noticiários que trazem matérias sobre o trabalho infantil, em condições sub-humanas e escravas. Esta parcela da população acaba por ser retirada da escola (se é que um dia já a frequentou) e assiste passívamente a vida passar pois o sentimento de revolta, muitas vezes, também já lhe foi impedido.

Com relação ao segundo tópico, refiro-me a exclusão no sentido explícito da palavra. Além da exclusão por raça, sexo, crença, a velha e conhecida exclusão social ainda é vigente. Filhos de operários ou de empregados considerados subalternos devem seguir a profissão de seus pais. Poucos são os agraciados com a possibilidade de acesso aos bancos universitários. Este é um mundo que não faz parte de seu universo de possibilidades.

Cabe neste ponto questionar se as políticas públicas inclusivas (leia-se Bolsa Escola, Vou a Escola, Brasil Alfabetizado, Cotas Raciais, entre outras) vão sanar as questões emergentes em nosso país ou estão apenas maquiando-as.

Não são desenvolvidos projetos extensivos de resgate a concepção cidadã na sua íntegra tais como controle da natalidade, projeto de vida. Educamos cognitivamente o indivíduo mas não educamos moral e emocionalmente este indivíduo para vida. Não raro nas entrevistas, amplamente divulgadas pelos meios de comunicação, os ditos “bandidos” referem-se a sua condição social, a falta de amparo emocional e as condições de pobreza ou até mesmo de miséria como argumentos que justificam seus atos violentos, que atentam contra a ordem e o bem estar social. É óbvio que perante a sociedade estes não são argumentos aceitáveis ou que justifiquem tais atos, pois são ilógicos ao nosso olhar de cidadãos de bem,cumpridores dos seus deveres. Não estou com isto fazendo uma apologia ao crime ou a revolução civil, nem concordando com esta premissa. É preciso uma análise muito mais ampla e com menos achismos para esta questão. É preciso manter a ordem social até porque sem ela não é possível a vida em sociedade. Princípios como a  moral jamais cai em desuso e nenhum ato violento justifica outro ato violento . Mas enquanto não tivermos um olhar diferente sobre a educação (não só a escolar) e assumirmos , debatendo amplamente, que homem estamos formando e qual, de fato, queremos formar, permaneceremos como a larva em seu casulo: preocupada com a sua transformação sem ter conhecimento sobre a realidade que a cerca, exposta a todos os perigos que a natureza apresenta.

Enquanto banalizarmos a violência, (seja ela contra o indivíduo ou contra um grupo social) permaneceremos em estado larval,ou seja, assistindo impassivelmente o mundo que nos cerca, como se jamais esta situação fosse bater a nossa porta.

É preciso educar emocionalmente a todos. Educar para possibilidade do erro e do acerto; do amor e do desamor; da alegria e da frustração. Esta não é uma tarefa fácil e que necessita de uma ampla compreensão. Educar emocionalmente não é apenas punir. É orientar, questionar, tornar perceptíveis as muitas facetas de uma mesma questão.É trazer a razão à questão de que cada escolha pessoal envolve, no mínimo, a dualidade cartesiana do acerto/erro. E que somos responsáveis por nossas escolhas e o resultado delas. Destaco que somos responsáveis mas não escravos de seus resultados. Educar é um processo constante portanto reavaliar posições, alterar cursos, também fazem parte de nosso desenvolvimento. Uma escolha não é justificada por si só. Ela não é uma algema determinante ou uma sentença. É uma certeza transitória.

Desta forma, quando nos tornarmos borboletas, cientes de nossas capacidades e possibilidades poderemos vislumbrar soluções mais concretas sobre o mundo que nos cerca, sobre os conformismos, achismos e exclusões que vivemos diariamente. Não seremos apenas belas borboletas cuja imagem permanece na alma de quem as sabe apreciar. Seremos borboletas pelas possibilidades que nossas asas trazem, pelo pólen emocional, cognitivo, moral que distribuímos, por nossas certezas (mesmo que transitórias), por nossas ousadias do cotidiano.

Continuo admirando as borboletas. Acredito que tenho muito que aprender com elas, principalmente sobre a fragilidade da existência e os questionamentos que devemos ter sobre o cotidiano: qual flor polinizar, como se proteger da chuva, até onde voar.

Desejo que nossa vida não seja efêmera e que tenha significado existência dos que nos cercam.

Raquel Silva

Professora Municipal

Mestranda em Educação-PUCR

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