Voracilos e velocilos parasitários

O que é o voracilo parasitário? Este termo foi criado por Rualdo Menegat (citado no post MENEGAT, LIAU E AS CIDADES) e significa a demanda das cidades em relação aos seus dejetos, aos seus materiais inaproveitados, às suas sobras. Como dar conta desse voracilo que despeja toneladas de objetos os mais variados sob o nome genérico de lixo? Caliça, vidros, madeiras, materiais orgânicos, dejetos hospitalares, sobras, rejeitos, pilhas, pedaços de tudo quanto se imagine, enfim, uma atividade que poderia ser comparada metaforicamente ao produto de um metabolismo gigantesco e insano?

Em São Paulo há projetos bastante eficazes de aproveitamento do lixo. Para a Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre), São Paulo “é líder no País em número de unidades privadas de tratamento de resíduos industriais. Com um Produto Interno Bruto de R$ 436 bilhões o Estado conta com 17 aterros, quatro incineradores e cinco plantas para uso do resíduo como combustível para fornos de cimento. São Paulo conta com as mais avançadas tecnologias para o tratamento e disposição de resíduos industriais do Brasil” (http://www.odebate.com.br/)

velocilo é associado à velocidade alienadora que impulsiona industrialmente os nossos cotidianos. Em meio à tal compressão do tempo e dos espaços, temos também uma incompreensão de nossos próprios tempos, de nossas próprias relações com os demais. Circulando em grupos de diversas naturezas (profissionais, pessoais, de estudos, de pesquisas, comunitários, políticos, religiosos, de consumidores, esportivos, etc.), muitas vezes nos alienamos de nosso semelhante e, a contragosto ou não, acabamos sendo cooptados pelo voracilo e pelo velocilo que, em verdade se complementam como uma estrutura indefinida, controladora, não-linear, indiferente e em boa parte, formadora de desconhecidos que vivem em comum.

Para o Professor Rualdo Menegat uma das maneiras mais eficazes de entendermos a cidade e diminuirmos os efeitos nefastos do voracilo parasitário e do velocilo repousa em um quadrilátero de ações que se integram de modo orgânico: educação, gestão ambiental, conhecimento e participação cidadã. O que importa é que esses cenários que parecem tão distintos possam interagir de modo a privilegiar não apenas uma melhor qualidade de vida para os cidadãos, mas um impacto menor ao meio ambiente, em razão das atividades do homem.

Aqui o papel da escola é fundamental, não só informando mas especialmente formando uma consciência na qual o sentimento de descartabilidade seja substituído por um sentido comunitário muito mais forte. Ao pensarmos no global, muitas vezes corremos o risco de esquecermos o local, o que está próximo a nós, onde vivemos e circulamos, onde estabelecemos nossas relações com o mundo. Essa matriz de pensamento nos leva a adquirirmos um sentimento que dificulta em muito qualquer tipo de ação mais efetiva: a indiferença. Nos tornamos insensíveis em relação ao meio-ambiente porque nos resta a sensação de que a mãe Terra é muito vasta e que os recursos naturais nunca nos faltarão, mesmo que nos informem o contrário, que os cientistas demonstrem que essa fartura material é uma falácia, e tenhamos aprendido desde cedo que, dos mananciais de água existentes, menos de um terço são de água potável: mesmo assim continuamos desperdiçando água, energia, petróleo, ao mesmo tempo que nos quedamos indiferentes quanto às devastações florestais, o aquecimento global e com o lixo que não separamos. Continuamos entulhando os cursos d’água com todo o tipo de dejetos que possamos produzir.

A escola não apenas deve alertar, mas criar ações contínuas para que adquiramos uma consciência de que o voracilo e o velocilo não discriminam gênero, etnia, idade: simplesmente as consomem. A consciência do homem, contudo, deve ser, ao mesmo tempo local e planetária. Se a informação muitas vezes não basta, o caminho muitas vezes árduo, longo e não raro imprevisível da formação deve ser especialmente focado. Infelizmente, talvez não haja tempo suficiente para revertermos a situação. Falta-nos, como sempre, humildade.

Contudo, sejamos socialmente críticos para entendermos que os países que mais poluem o mundo, portanto as cidades, os campos, os mananciais de água, são justamente os mais poderosos: Estados Unidos e China. Não basta, portanto, sermos ingênuos. Precisamos de ações políticas que toquem no ponto mais sagrado do capitalismo: o bolso. Aí, e somente aí teremos a possibilidade de sermos ouvidos (e levados a sério).

Enquanto os Estados Unidos, além de não assinarem o tratado de Kioto, continuarem predando o mundo e a China continuar alimentando um modelo de produção e de trabalho semi-escravista, adotando padrões de violência ambiental extremamente nítidos, teremos graves dificuldades. Nenhum dos dois gigantes pretende melhorar qualquer coisa a respeito de seus projetos econômicos, sociais e ambientais. Nós todos pagamos a conta. Há voracilos e velocilos que possuem bandeiras internacionais. E que um dia devorarão não somente a si próprios, mas a todos nós.

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