Murió el guitarrista Paco de Lucía

FONTE D FACTO

Murió el guitarrista Paco de Lucía

Por Dfacto // Mié, 26/02/2014 – 17:21

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El guitarrista Paco de Lucía falleció a los 66 años en Quintana Roo, México, víctima de un infarto mientras jugaba con sus hijos en la playa.

El artista fue Premio Príncipe de Asturias de las Artes y emblema, junto con Camarón de la Isla, de la renovación y difusión mundial del flamenco.

Francisco Sánchez Gómez, su verdadero nombre, había inyectado al flamenco a lo largo de su larga trayectoria ritmos como el jazz, la “bossa nova” e incluso la música clásica.

Discípulo de Niño Ricardo y de Sabicas, y respetado por músicos de jazz, rock o “blues” por su personal estilo, logró, entre otros muchos reconocimientos, un Grammy al mejor álbum flamenco 2004; el Premio Nacional de Guitarra de Arte Flamenco; la Medalla de Oro al Mérito de las Bellas Artes 1992; el Premio Pastora Pavón La Niña de los Peines 2002; y el honorífico de los Premios de la Música 2002.

Fue en Madrid donde surgió la mítica pareja El Camarón-De Lucía, tan virtuosa y purista como renovadora del flamenco y que se tradujo en más de diez discos de estudio, como “El Duende Flamenco” (1972) “Fuente y Caudal” (1973).

A través de un comunicado, la familia señaló que no hay consuelo” ni para los que le conocían, ni para los que le querían sin conocerlo, y que “el dolor ya tiene fecha” para este clan artístico.

“Anoche se nos fue el padre, el hermano, el tío, el amigo y se nos fue el genio Paco de Lucía”, dicen sus allegados, que han querido compartir “un abrazo y una lágrima” con el mundo, bajo su “convicción de que Paco vivió como quiso y murió jugando con sus hijos al lado del mar”.

Há mais do que fúria na Bósnia

FONTE OUTRAS PALAVRAS

http://outraspalavras.net/destaques/zizek-ha-mais-do-que-furia-na-bosnia/

Zizek: Há mais do que fúria na Bósnia

– ON 18/02/2014CATEGORIAS: DESTAQUESMUNDOPOLÍTICAS

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Presidency and Government buildings on fire during protest in Sarajevo

Ao unirem três etnias da ex-Iugoslávia, protestos retomam projeto emancipatória e revelam: é possível enfrentar onda de fundamentalismo que atravessa o planeta

Por Slavoj ZizekGuardian | Tradução: Vila Vudu

Semana passada, cidades queimavam,[1] na Bósnia-Herzegovina. Tudo começou em Tuzla, cidade de maioria muçulmana. Os protestos então se espalharam até a capital, Sarajevo, e Zenica, mas também até Mostar, onde vive largo segmento da população croata, e Banja Luka, capital da parte sérvia da Bósnia. Milhares de manifestantes furiosos ocuparam e incendiaram prédios públicos. Embora a situação já tenha se acalmado, persiste no ar uma atmosfera de alta tensão.

Os eventos fizeram surgir teorias da conspiração (por exemplo, que o governo sérvio teria organizado os protestos para derrubar o governo bósnio), mas é preciso ignorá-las firmemente, porque, haja o que houver por trás das manifestações, o desespero dos manifestantes é autêntico. Fica-se tentado a parafrasear aqui a famosa frase de Mao Tse Tung: há caos na Bósnia, a situação é excelente![2]

Por quê? Porque as exigências dos manifestantes são as mais simples que há – emprego, uma chance de vida decente e o fim da corrupção – mas mobilizaram pessoas na Bósnia, país que, nas últimas décadas, tornou-se sinônimo de feroz limpeza étnica.

Antes disso, os únicos protestos de massa na Bósnia e em outros estados pós-Iugoslávia tinham a ver com paixões étnicas ou religiosas. Em meados de 2013, dois protestos públicos foram organizados na Croácia, país mergulhado em profunda crise econômica, com desemprego alto e profundo sentimento de desespero: os sindicatos uniram-se para organizar uma manifestação em apoio aos direitos dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que nacionalistas de direita[3] iniciavam um movimento de protesto contra o uso do alfabeto cirílico em prédios públicos em cidades de minoria sérvia. A primeira iniciativa levou umas duas centenas de pessoas para uma praça em Zagreb; a segunda mobilizou centenas de milhares, como, antes, acontecera num movimento fundamentalista contra o casamento de homossexuais.[4]

A Croácia está longe de ser exceção: dos Bálcãs à Escandinávia, dos EUA a Israel, da África Central à Índia, está começando uma nova Idade das Trevas, com paixões étnicas e religiosas explodindo, e com os valores das Luzes retrocedendo. Essas paixões sempre arderam por trás de tudo, mas a novidade é que, hoje, aparecem desavergonhadamente expostas.

Assim sendo, o que fazer? Liberais dominantes nos dizem que, quando os valores básicos da democracia são ameaçados por fundamentalistas étnicos ou religiosos, temos todos de nos unir numa agenda liberal-democrática de tolerância cultural, salvar o que possa ser salvo e deixar de lado todos os sonhos de transformação social mais radical. Nossa tarefa, dizem eles, é clara: temos de escolher entre a liberdade liberal e a opressão fundamentalista.

Porém, quando nos fazem, em tom triunfalista, perguntas (exclusivamente retóricas!) como “Você deseja que as mulheres sejam excluídas da vida pública?” ou “Você deseja que todos os que critiquem a religião sejam condenados à morte?”, o que mais nos deve fazer desconfiar da pergunta é a obviedade da resposta.

O problema aí é que esse universalismo liberal simplório já perdeu a inocência, há muito tempo. O conflito entre a permissividade liberal e o fundamentalismo é, na verdade, um falso conflito – um círculo vicioso e viciado no qual os dois polos pressupõem-se e geram-se mutuamente, um o outro.

O que Max Horkheimer[5] disse sobre o fascismo e o capitalismo lá nos anos 1930s (que os que não querem falar criticamente sobre o capitalismo devem também calar sobre o fascismo) pode aplicar-se ao fundamentalismo de hoje: os que não querem falar criticamente sobre a democracia liberal devem também calar a boca sobre o fundamentalismo religioso.

Reagindo contra caracterizar-se o marxismo como “o Islã do século 20”, Jean-Pierre Taguieff escreveu que o Islã está em vias de mostrar-se como o “marxismo do século 20” para prolongar o violento anticapitalismo do comunismo, depois do declínio do comunismo.

Mas as recentes vicissitudes do fundamentalismo muçulmano confirmam, pode-se dizer, o antigo insight de Walter Benjamin, de que “cada ressurgimento do fascismo dá testemunho de uma revolução fracassada”. O crescimento do fascismo é, em outras palavras, o fracasso da esquerda e, simultaneamente, prova de que subsiste um potencial revolucionário, uma insatisfação, que a esquerda não é capaz de mobilizar. E não se pode dizer exatamente a mesma coisa do hoje chamado “islamo-fascismo”? O surgimento do islamismo radical não é perfeito correlato do desaparecimento da esquerda secular nos países muçulmanos?

Quando o Afeganistão é apresentado como país fundamentalista islamista “típico”, quem ainda lembra que, há 40 anos, foi o país de mais forte tradição secular, incluindo um poderoso Partido Comunista que chegou ao poder no Afeganistão, independente da União Soviética?

Esse é o contexto no qual se tem de compreender os recentes eventos na Bósnia. Numa das fotos dos protestos, veem-se os manifestantes exibindo três bandeiras lado a lado: da Bósnia, da Sérvia e da Croácia, mostrando o desejo de ignorar todas as diferenças étnicas. Para resumir, temos aqui uma rebelião contra elites nacionalistas: o povo da Bósnia afinal compreendeu quem é o seu verdadeiro inimigo: não outros grupos étnicos, mas os seus próprios “representantes” políticos que fingem protegê-los contra os demais. É como se o velho e tantas vezes mal usado lema titoísta[6] da “fraternidade e unidade” das nações iugoslavas ganhasse nova atualidade.

Um dos alvos dos manifestantes era o governo da União Europeia que supervisiona o estado bósnio, forçando a paz entre as três nações e oferecendo considerável ajuda financeira para ajudar no funcionamento do Estado. Pode parecer estranho, porque os objetivos dos manifestantes são, nominalmente, os mesmos objetivos de Bruxelas: prosperidade e o fim das tensões étnicas e da corrupção.

Contudo, o modo como a União Europeia realmente governa a Bósnia cria divisões: a União Europeia só vê, como suas parceiras privilegiadas, as elites nacionalistas, entre as quais faz uma mediação.

O que as explosões na Bósnia confirmam é que ninguém jamais conseguirá superar paixões étnicas impondo a elas uma agenda liberal: o que uniu os manifestantes foi uma mesma radical exigência de justiça.

O passo seguinte e mais difícil será organizar os protestos num novo movimento social que ignore as divisões étnicas; e organizar novos protestos – já imaginaram uma cena, com bósnios e sérvios furiosos, reunidos num comício conjunto, em Sarajevo?

Ainda que os protestos percam gradualmente a força, ainda assim permanecerão como uma fagulha de esperança, como soldados inimigos que se abraçavam nas trincheiras, na primeira guerra mundial. Eventos autenticamente emancipatórios sempre incluem ignorar identidades.

E vale o mesmo para a recente visita de duas representantes do movimento Pussy Riot a New York: num grande show de gala foram apresentadas por Madonna, na presença de Bob Geldof, Richard Gere, etc., toda a gangue dos direitos humanos de sempre. Deveriam ali, isso sim, manifestar solidariedade a Snowden, para mostrar que o Pussy Riot e Snowden são parte do mesmo movimento global. Sem esses gestos que aproximem o que, na nossa experiência ideológica diária, parecem ser coisas incompatíveis (muçulmanos, sérvios e croatas na Bósnia; secularistas turcos e muçulmanos anticapitalistas na Turquia, etc.), os movimentos de protesto sempre serão manipulados por alguma superpotência, em sua luta contra outra.

Slavoj Žižek

Slavoj Žižek é um filósofo e teórico crítico esloveno. É professor da European Graduate School e pesquisador sênior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. É também professor visitante em várias universidades norte-americanas, entre as quais a Universidade de Columbia, Princeton, a New School for Social Research, de Nova Iorque, e a Universidade de Michigan. Veja seus livros em nossa loja virtual.

É na canção popular brasileira que melhor se vê a libido da língua portuguesa

FONTE: PUBLICO PORTUGALhttp://www.publico.pt/cultura/noticia/e-na-cancao-popular-brasileira-que-melhor-se-ve-a-libido-da-lingua-portuguesa-1621591

É na canção popular brasileira que melhor se vê a líbido da língua portuguesa

30/01/2014 – 08:30

Será o português uma língua boa para a criação? Colóquio na Fundação Gulbenkian juntou durante dois dias escritores, músicos, actores, encenadores, teóricos e programadores para responder a esta e outras perguntas.

Chico Buarque foi um dos compositores mais evocados durante o colóquio sempre que se falou de música e palavra PAULO PIMENTA

O que pode uma língua? Para uns tudo, para outros nada (pelo meio fica Nuno Artur Silva, fundador da agência Produções Fictícias, a garantir que “haveria tanto a dizer sobre o assunto e os seus múltiplos sentidos…”). No colóquio de segunda e terça-feira, em Lisboa, a Fundação Calouste Gulbenkian juntou profissionais de várias áreas, da música à literatura, passando pelo teatro, a dança e o cinema, sem esquecer os programadores, para debater as potencialidades criativas da língua portuguesa. O que é que só se pode dizer em português? Esta é uma língua estranha para quem compõe? Que dificuldades enfrenta quem a traduz? E como explicar a um americano que uma palavra pode ter muitos sentidos lá dentro?

Para quem trabalha a língua portuguesa, seja para escrever livros ou canções, ela é sobretudo um referente cultural, uma ferramenta de trabalho ou, como defende o escritor Mário de Carvalho, um reservatório de memória e tradição, como a própria literatura. “A memória também está nas palavras porque elas transportam uma história, carregam o grego e o árabe”, explicou no painel dedicado à criação literária, em que estiveram também o tradutor americano Richard Zenith, Nuno Artur Silva ou o cabo-verdiano Germano de Almeida.

Foram precisamente estes dois últimos que extremaram posições a partir do tema do colóquio, directamente saído da canção Língua, de Caetano Veloso (“O que pode uma língua?”). O primeiro, ligado sobretudo ao audiovisual, defendeu que o português nada pode se sobre ele não formos capazes de construir mitos: “A língua [portuguesa] é o território, não é a pátria. Essa está nos mitos, no imaginário, nas pessoas que se emocionam com o mesmo que nós.” Sem esse “imaginário” será um instrumento pouco útil, mesmo que seja a mais falada do hemisfério sul. Já o autor de O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo e de As memórias de um espírito encontra na língua portuguesa uma “fonte de riqueza” que nas suas ilhas se mistura com o crioulo. “Na minha casa o meu pai falava em português e minha mãe em crioulo. Eu nasci bilingue e quando cresci fiquei abismado ao descobrir que havia cabo-verdianos que não [o] eram”, explicou, dizendo que escreve em português sobre uma realidade e uma cultura que é a de Cabo Verde – a sua.

Para Germano de Almeida, conferencista transformado em contador de histórias para explicar que a língua portuguesa lhe é tão importante que chegou a acabar um namoro porque alguém lhe escreveu num papel “penço em ti” – “como poderia eu continuara a namorar uma mulher que escrevia ‘penso’ com ç?” -, o português é uma “ponte entre culturas”. Admitindo que o usa para escrever porque lhe é natural fazê-lo e lhe permite chegar a uma audiência mais vasta, mesmo quando isso lhe vale muitas críticas no seu país, o autor continua a defender o crioulo como “língua de intimidade”, feita para “trazer no dia-a-dia”: “O cabo-verdiano namora em crioulo. Não passa pela cabeça de um cabo-verdiano dizer ‘amo-te’ a uma mulher. ‘Amo-te’ é uma palavra violenta…”

Riqueza de sentidos
Palavras “violentas”, “formais”, uma “maneira de falar que fecha as vogais” e torna mais presentes as consoantes que, para um estrangeiro, são difíceis de dizer. Uma língua que resulta de “uma longa decantação”: “O português de Portugal pode ser uma língua dura, difícil. O do Brasil amacia-o, como o africano. Muda-lhe os ritmos e as entoações, junta-o às línguas indígenas para criar uma espécie de irradiação atlântica”, diz ao PÚBLICO José Miguel Wisnik, autor, compositor e professor de Literatura da Universidade de São Paulo, convidado do painel moderado pelo musicólogo Rui Vieira Nery.

“O português que se fala aqui é mais gutural, cria uma série de percussões surdas. O do Brasil estabiliza as vogais, o que deixa que as sílabas durem – é como uma orquestra em que se ouvem as cordas e os sopros”, explica o músico que também compõe para cinema, teatro e dança. “Mas todas as línguas inventam um modo de dizer.”

No caso do português, a ligação à música, seja ela erudita ou popular, faz parte da história da própria língua, lembra Wisnik, referindo-se às cantigas de amor e de amigo medievais. E se é verdade que há géneros musicais em que se torna mais difícil usá-la – “na tradição do bel canto a técnica foi optimizada para o italiano” -, outros há em que ela é tão natural como respirar, até pela sua “riqueza de significações”.

Para Alexandre Delgado, músico e compositor, autor das óperas O Doido e a Morte A Rainha Louca, para além da riqueza de sentidos há a considerar como enormes vantagens da língua portuguesa uma “rítmica natural altamente irregular” e uma “fonética variadíssima”, que torna fácil ao português falar outros idiomas porque conhece uma grande panóplia de sons e consegue imitá-los.

Quando compõe ou traduz libretos para português, Delgado diz ter sempre a preocupação de que as palavras sejam claras – “há contextos em que, se se deixa de perceber a linguagem, a música não faz sentido” – o que não se passa com muitos outros autores. Luís Tinoco, que também está habituado a compor para palco, é um deles. “Aceito que seja legítimo destruir as características da própria língua para fazer música, que se sacrifique a compreensão. Tão legítimo como fazer música para que se perceba cada palavra”, diz, reconhecendo que há línguas mais propícias a determinado tipo de música. “Não é por acaso que não há jazz em chinês e que uma música marcial casa muito bem com o alemão”, exemplifica o autor da ópera Paint Me (2010) e de partituras para textos de poetas e escritores como Álvaro de Campos (From the Depth of Distance) e Camilo Pessanha (Três Poemas do Oriente).

Para Tinoco, todo o compositor de música erudita é um optimista que procura um som – “qualquer som é musicável” – e um texto pode garantir, mais do que as palavras certas, uma atmosfera propícia ao nascimento de uma ideia: “Quando pego num texto estou preocupado com a forma como ele estimula a minha imaginação musical e não com o som das palavras escritas.” É por isso que defende que, por vezes, para trabalhar há que abdicar de aspectos estritos da cultura portuguesa. “A minha pátria língua está seguramente naquilo que é a herança que nos deixam os nossos escritores – a relação afectiva que consigo estabelecer com eles é irrepetível com autores estrangeiros.”

Uma canção livre
Na canção popular, e devido, talvez, à presença de Wisnik, o debate da Gulbenkian andou muito à volta das diferenças entre trabalhar o português do Brasil e o de Portugal e sobre a resposta à pergunta: “O que é que nasce primeiro – a letra ou a melodia?”

Tiago Torres da Silva, Pedro Silva Martins e Ângelo César (Boss AC) representaram os letristas e compositores portugueses, para quem a palavra pode funcionar como um gatilho ou ser o que mais pesa numa canção.

Silva Martins, compositor dos Deolinda, mas também de temas para os fadistas Ana Moura, Cristina Branco e António Zambujo, diz que procurar palavras para colocar nos intervalos que a música deixa é a parte “mais intensiva” do ofício de criar canções. É dele a expressão “palavra-gatilho” – a que faz despoletar toda a letra – e a ideia de que a melodia nasce primeiro porque “ela já traz uma história”: “Eu acredito que existe uma língua musical portuguesa que não precisa de palavras.”

Boss AC é um adepto da palavra. Embora já tenha composto para fado, o músico a quem se devem discos como Preto no Branco e Rimar contra a Maré, tem-se dedicado sobretudo ao rap e ao hip-hop, géneros em que “o português de Portugal é um desafio”. “O português de Angola também é muito mais musical que o daqui”, sublinha o compositor de origem cabo-verdiana. Boss AC começou por escrever em inglês, imitando os intérpretes que ouvia quando era ainda adolescente, mas rapidamente optou pela sua língua: “A música só faz sentido se percebermos tudo o que está a ser dito.”

Tal como o compositor dos Deolinda, Tiago Torres da Silva gosta de sublinhar a importância da palavra, sobretudo quando se trata de fado tradicional, género em que “é mais importante ouvir a voz do que a melodia”, mas dá prioridade à música. Escritor, encenador e letrista, diz que as palavras das canções ainda são vistas como “poesia menor” e que compõe com um pé em Alfama e outro em Ipanema. Quem olha para o seu percurso não tem qualquer dificuldade em acreditar nesta ponte atlântica que o faz falar de Chico Buarque e João Gilberto com a mesma intensidade com que cita Amália, o que leva Rui Vieira Nery a chamar-lhe o “Pedro Álvares Cabral da canção”, com David Mourão-Ferreira e Vinicius de Moraes no ADN.

Tiago Torres da Silva já escreveu para Teresa Salgueiro, Carminho, Maria João, Ricardo Ribeiro, Tereza Tarouca e Carlos do Carmo, mas também para Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Maria Bethânia, Daniela Mercury e Tito Paris. A língua portuguesa interessa-lhe, venha ela de onde vier, só é preciso levar em conta que “cada tipo de música tem um dialecto próprio”: “Há palavras que o fado não admite.”

A generalidade dos compositores brasileiros, explica o letrista, fazem a música primeiro, os portugueses querem musicar a letra. “A canção brasileira é, por isso, muito mais livre”. Seja como for, “escrever canções populares aprende-se na rua, nas casas de fado de Lisboa que não são para turistas ou nos botecos da Lapa do Rio de Janeiro”. Wisnik concorda. É na rua que a língua se usa sem constrangimentos, explorando os múltiplos significados em que o português é rico. Além disso, a música popular brasileira – a de Chico Buarque, “esse grande escritor de livros e de canções”, Caetano Veloso, João Gilberto, Noel Rosa, António Cícero e muitos outros – está “profundamente ligada à fala”. João Gilberto é a “figura-mestre” desta canção como lugar da palavra oral, em que a entoação é música.

Há canções, garante Wisnik, em a palavra recebe uma injecção de regularidade da música – e começa a entoar Garota de Ipanema, tema eterno de Vinicius e Tom Jobim, para exemplificar -; há outras em que se passa o contrário (desta vez evoca um samba de Noel Rosa que é “como uma conversa de botequim”). “Na ‘passionalizante’, diferente das outras duas, as sílabas estendem-se para explorar a música, do grave ao agudo” – e começa a cantar baixinho “Eu sei que vou te amar/Por toda a minha vida eu vou te amar”… Temas que fizeram da música brasileira um veículo único da transmissão do português pelo mundo, sublinha este professor que deu aulas de literatura nos Estados Unidos, onde muitos dos alunos que se inscreviam nas suas cadeiras o faziam para aprender a cantar.

“Há poesia que tem desejo de canção e outra que não. Num tema comoLíngua, de Caetano, se vê muito bem essa aproximação entre a canção e a oralidade; se vê muito bem a libido da língua portuguesa, uma língua que tem algo de carnal, que está ligada ao prazer, ao que comemos e ao gosto das palavras.” Talvez por isso Caetano cante “Gosto de sentir a minha língua roçar/ A língua de Luís de Camões”.

O jogo do gás natural entre Europa e Rússia

FONTE: BLOG INFOPETRO

http://infopetro.wordpress.com/2012/03/19/observatorio-de-geopolitica-da-energia-ii-o-jogo-do-gas-natural-entre-europa-e-russia/

Observatório de geopolítica da energia II: o jogo do gás natural entre Europa e Rússia

In gás natural on 19/03/2012 at 00:15

Por Renato Queiroz e Felipe Imperiano

O acesso  a recursos que revertam em  segurança energética  constitui-se em tema relevante nas pautas de política externa dos países. A concentração espacial de recursos naturais estratégicos para o desenvolvimento das nações e garantidores do nível de bem-estar de seus cidadãos tem consequências profundas no delineamento das políticas energéticas das nações. O uso de ativos energéticos como ferramenta de defesa de interesses políticos e econômicos não é algo novo no cenário internacional.

Um bom exemplo que se tornou emblemático para os estudiosos em geopolítica energética é a situação de dependência da Europa em relação ao  gás russo e, em contrapartida, como o gás natural é estratégico para o desenvolvimento econômico da Rússia. O Estado russo sempre se valeu de suas enormes reservas de óleo e gás. O país tem a sétima maior reserva de petróleo do mundo e a maior reserva de gás natural, isto é, 24% do total.  Em 2010 a Rússia foi ao mesmo tempo maior produtor de gás natural, alcançando a cifra de 637 bcm (bilhões de metros cúbicos), isto é, 19,4% do total produzido mundialmente, sendo ao mesmo tempo o número um em exportações (IEA, 2011).

A  Europa, ávida por energia, traçou planos para o suprimento ao seu mercado através de fontes longínquas de suas fronteiras. Os russos se mobilizaram e vieram construindo de forma gradual e persistente seus oleodutos e gasodutos em direção à Europa. A Rússia tem um planejamento nacional estratégico expansionista, baseado em  exportação de energia sendo, inclusive, o único exportador líquido de energia dos BRIC´s. O principal mercado para o gás russo é a Europa.

Como o crescimento do consumo de gás no continente europeu deve permanecer por longo período, essa dependência energética da Rússia deve ter vida longa segundo muitos analistas. A fatia da estatal russa Gazprom  no mercado europeu ultrapassa 50%.  Agravando essa dependência, surge a insegurança que ronda as decisões sobre o uso de plantas de geração de energia nuclear na Europa, o que coloca o gás natural como uma forte opção para atender a uma oferta perdida. Em adição, a crise econômica iniciada em 2011 deflagrou um processo de austeridade fiscal, o qual traz consequências importantes sobre a capacidade de financiamento de fontes alternativas de energia,  aumentando ainda mais a dependência da matriz europeia  ao  gás natural.  Logo, essa questão ganha contornos mais complexos no continente europeu, posto que o seu número de fornecedores é bastante reduzido.

Os russos sempre utilizaram as mais diversas estratégias para manterem seus negócios energéticos com a Europa. O subsídio da energia para os estados membros da antiga URSS já era uma prática comum antes mesmo da ascensão ao poder de Vladmir Putin na Rússia, por exemplo. Ainda hoje esse artifício é bastante usado pelo Kremlin. Nas recentes disputas pelo preço do gás com os países do leste europeu, foi oferecido o perdão da dívida em troca do monopólio da rede de dutos que passam por aqueles países para levar gás russo até o oeste europeu e assim aumentar o controle da Gazprom sobre o transporte do suprimento energético para a Europa.

Por um lado, se a Europa é bem dependente da energia proveniente da Rússia, por outro ela exerce importante papel na economia russa. A União Europeia não só é o principal parceiro comercial, como também a maior fonte de investimento direto estrangeiro (IDE) no país. Em 2008 o IDE da UE na Rússia atingiu US$ 43 bilhões, sofrendo uma substancial queda após a crise financeira mundial, porém se recuperando rapidamente e chegando ao patamar de US$ 34 bi já em 2010. Mas há gargalos de infraestrutura e de atraso tecnológico na Rússia.  O país necessita de fortes investimentos nessas áreas e de transferência  de  know-how ocidental, vital para que o seu setor energético não enfrente uma queda na produção, o que poderia afetar drasticamente o orçamento do Estado. Assim, o fluxo de recursos financeiros provenientes das vendas de gás para a Europa é vital.

Além disso, o preço pago pelo gás russo teve consideráveis elevações nos últimos anos,  aproximando-o do Gás Natural Liquefeito-GNL, o que fez com que este se tornasse mais competitivo. O gráfico abaixo apresenta a evolução dos preços do gás natural nos mercados, incluindo o do gás natural no Henry Hub.

Tal competitividade levou a Rússia a monitorar atentamente o mercado de GNL, desenvolvendo estratégias que impeçam que esse gás concorrente aumente a sua  participação no mercado energético europeu.  Como exemplo, em novembro de 2011, em Doha, no Qatar, na  1ª Cúpula de Países Exportadores de Gás Natural [1], os russos, representados pelo seu presidente Dmitri Medvedev, estiveram nessa cimeira com uma posição de defender seu mercado de gás. Afinal a expansão das plantas de GNL é uma forte ameaça para a manutenção do marketshare russo, podendo levar a uma perda de receita significativa.  A Rússia, assim, negociou com o Qatar, em troca de não aumentar o  fornecimento de GNL à Europa, o direito de investir no projeto Yamal que vai produzir gás natural liquefeito na península de mesmo nome  na Sibéria, uma espécie de embargo do GNL ao velho continente.

A Europa, no entanto, busca soluções de novas fontes de fornecimento de gás fora da Rússia. A região do Cáucaso e da Ásia Central se tornou a nova fronteira energética, sendo alvo de disputa por diversas potências. O Turcomenistão tem a quarta maior reserva de gás do mundo, o Cazaquistão a nona maior de petróleo. O Azerbaijão tem  reservas de gás comprovadas que totalizam cerca de 2,6 trilhões de metros cúbicos.  As perspectivas de  produção de gás no Azerbaijão em 2017 atingirão 30 bilhões de metros cúbicos,  e em 2025 – 50 bilhões. A Europa tem no “Corredor do Sul”, como é chamado o conjunto de projetos que pretendem ligar a região ao continente europeu, a sua principal alternativa para reverter o quadro delicado em que se encontra no campo energético.

O gasoduto Nabucco, por exemplo, é o projeto mais ambicioso e mais caro de todos. A base prevista de recursos são as reservas no Azerbaijão e Turcomenistão.  Esse  gasoduto transportaria gás da Ásia Central à Europa de forma a reduzir a dependência da energia russa. Há dificuldades ainda para a concretização do projeto. O gasoduto de grande extensão necessita de cerca de 14 bilhões de euros para o seu financiamento e  tem ainda um traçado que exige difíceis acomodações políticas. Essa indefinição faz com que os russos mantenham a determinação de influenciar o mercado europeu de energia.

Historicamente a região do Cáucaso e Ásia Central esteve sobre a égide russa. Logo, Moscou lança mão de todas as táticas para  manter a área dentro de seu controle político,  buscando inclusive estabelecer ações, para que  os fluxos de energia para a Europa sigam pela sua rede de transporte. Uma das manobras russas é enfraquecer o poder dos ucranianos que tem um histórico de colocar empecilhos técnicos e comerciais,  para que o gás russo, que passa pela Ucrânia, chegue à Europa. A Rússia, assim, buscou acabar com a sua dependência em relação ao gasoduto da Ucrânia. O projeto russo-alemão Nord Stream,  inaugurado em 2011, dá condições à Rússia de enviar gás natural diretamente para a Europa através de gasodutos submarinos construídos no Mar Báltico. Outra estratégia dos russos seria a construção do projeto South Stream nas águas territoriais turcas no Mar Negro. A Turquia já autorizou que os russos passassem o duto por suas águas territoriais. Esse projeto, se consolidado, permitirá que a Rússia atinja o sudeste europeu, podendo inviabilizar o projeto Nabucco.

Verifica-se que os russos estão acelerando suas ações para manter a condição de fornecedor principal de gás à Europa, afinal, além do GNL, um novo e forte concorrente bate à porta, querendo  entrar no jogo: o shale gás, ou seja, o gás recuperável nas rochas de xisto. Vale ressaltar que a Polônia, que se organiza para explorar  suas reservas de gás de xisto que beiram 5,0 trilhões de metros cúbicos,  pode reduzir a dependência de Moscou sobre a Europa.

O jogo do gás natural entre Europa e Rússia trará, no médio prazo, novas configurações. O aumento da oferta do gás natural seja convencional, shale gás, ou GNL mexerá no tabuleiro energético não somente da Ásia e Europa, mas também no âmbito mundial. Um dado curioso é comparar as reservas provadas de gás convencional que somam 6.608 trilhões de pés cúbicos-TCF( trillion cubic feet) ou seja,  cerca de 187 trilhões de metros cúbicos, segundo a BP,  e o volume de shale gas recuperável,  conforme estudo da EIA de 2011, que soma o mesmo nível do convencional, 6.620 TCF ou 187,4 trilhões de metros cúbicos.

Em suma a maior oferta de gás trará um alinhamento dos mercados. Esse cenário de gás abundante no horizonte de 20 a 40 anos (2030 a 2050) influenciará, certamente, os preços dos combustíveis fósseis e pode, inclusive, respingar no mercado das energias renováveis.


[1] A 1ª Cúpula de Países Exportadores de Gás Natural reuniu  Rússia, Argélia, Bolívia, Venezuela, Egito, Irã, Qatar, Líbia, Nigéria, Guiné Equatorial e Trinidad e Tobago. Estavam presentes como observadores a Holanda, a Noruega e o Cazaquistão. Esses 14 países controlam 70% das reservas mundiais de gás e mais de 80% da produção do gás natural liquefeito-GNL

Referencias Bibliográficas

BP Statistical Review of World Energy, 2011

IEA World Energy Outlook, 2011

EIA-DOE World  Shale Gas Resources: An Initial Assessment of 14 Regions Outside

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As liberdades vigiadas da Ucrânia e da Crimeia

Natural Gas pipelines from Russia into Europe (gif) [2252 x 1674]CLICK HERE FOR MORE MAPS!thelandofmaps.tumblr.com

 

O mapa e gráfico acima mostram a dependência dos países europeus (mas não só eles) do gás natural produzido na Rússia, e comercializado pela Gazprom. Note-se que tanto a Crimeia quanto a Ucrânia são pontos importantes em tal distribuição, pois é distribuidora através dos gasodutos que passam no território da Ucrânia e da República Autônoma da Crimeia.

Notemos que tanto a Ucrânia, quanto a Crimeia são pontos que igualmente participam de tal distribuição, mas, além disso a Crimeia é uma República Autônoma da Ucrânia. Na verdade a Crimeia era integrante da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), tendo sido transferida por Nikita Krushov para a Ucrânia em 1954 em razão da comemoração do 300º aniversário de unificação da Ucrânia e da URSS. Com a debàcle desta última, , a Crimeia declarou sua independência em 5 de maio de 1992 e mais tarde concordou em se tornar integrante da Ucrânia na condição de República Autônoma.No entanto a maioria da população é russa e não concordou com a situação proposta. Podemos dizer que esse é um pólo de permanente tensão entre a Ucrânia e Crimeia.

Além do que, no Mar Negro há uma forte base naval soviética, que atua quando há conflitos armados na região.

Por outro lado, a Ucrânia está praticamente dividida entre sua população de origem russa e de origem ucraniana, além de outras minorias. Também aqui há uma situação bastante tensa. Em outros termos, um barril de pólvora, cujo rastilho não é muito curto. Assim se tem uma ideia dos conflitos na Ucrânia, quando uma parte de sua população prefere fazer parte da Comunidade Européia e outra pretende manter-se sob a influência soviética.

Quanto à economia, a Ucrânia é a sétima produtora de aço do mundo.

Não se pode dizer, em meu entender, que especialmente a Crimeia não faça parte da Rússia. No entanto, par Putin, o que houve na Ucrânia foi um golpe de estado. Do ponto de vista de retaliação, seja dos mercados, seja de sanções econômicas, os dois lados perdem. Falar em intervenção militar é uma bobagem inominável por parte dos Estados Unidos e da OTAN.

Aposto que o único caminho possível é o diplomático, pois sanções econômicas podem levar simplesmente ao fechamento das torneiras que abastecem de gás natural a Comunidade Européia. Alguém vai ter muito prejuízo, mas, sem dúvida, ele será compartilhado de modo brutal entre possíveis vencedores e perdedores, se é que se pode usar essa terminologia no caso.

Enquanto a retórica diplomática e as ameaças econômicas buscarem resolver o assunto, além, é claro, dos mísseis, dos tanques, dos exércitos soviéticos, sabemos já que perdedor mesmo só haverá um: o povo. Famílias destruídas, velórios, assassinatos, de encomenda ou não e uma destruição absurda. Esses sim, como sempre, os verdadeiros perdedores. HILTON BESNOS.