É na canção popular brasileira que melhor se vê a libido da língua portuguesa

FONTE: PUBLICO PORTUGALhttp://www.publico.pt/cultura/noticia/e-na-cancao-popular-brasileira-que-melhor-se-ve-a-libido-da-lingua-portuguesa-1621591

É na canção popular brasileira que melhor se vê a líbido da língua portuguesa

30/01/2014 – 08:30

Será o português uma língua boa para a criação? Colóquio na Fundação Gulbenkian juntou durante dois dias escritores, músicos, actores, encenadores, teóricos e programadores para responder a esta e outras perguntas.

Chico Buarque foi um dos compositores mais evocados durante o colóquio sempre que se falou de música e palavra PAULO PIMENTA

O que pode uma língua? Para uns tudo, para outros nada (pelo meio fica Nuno Artur Silva, fundador da agência Produções Fictícias, a garantir que “haveria tanto a dizer sobre o assunto e os seus múltiplos sentidos…”). No colóquio de segunda e terça-feira, em Lisboa, a Fundação Calouste Gulbenkian juntou profissionais de várias áreas, da música à literatura, passando pelo teatro, a dança e o cinema, sem esquecer os programadores, para debater as potencialidades criativas da língua portuguesa. O que é que só se pode dizer em português? Esta é uma língua estranha para quem compõe? Que dificuldades enfrenta quem a traduz? E como explicar a um americano que uma palavra pode ter muitos sentidos lá dentro?

Para quem trabalha a língua portuguesa, seja para escrever livros ou canções, ela é sobretudo um referente cultural, uma ferramenta de trabalho ou, como defende o escritor Mário de Carvalho, um reservatório de memória e tradição, como a própria literatura. “A memória também está nas palavras porque elas transportam uma história, carregam o grego e o árabe”, explicou no painel dedicado à criação literária, em que estiveram também o tradutor americano Richard Zenith, Nuno Artur Silva ou o cabo-verdiano Germano de Almeida.

Foram precisamente estes dois últimos que extremaram posições a partir do tema do colóquio, directamente saído da canção Língua, de Caetano Veloso (“O que pode uma língua?”). O primeiro, ligado sobretudo ao audiovisual, defendeu que o português nada pode se sobre ele não formos capazes de construir mitos: “A língua [portuguesa] é o território, não é a pátria. Essa está nos mitos, no imaginário, nas pessoas que se emocionam com o mesmo que nós.” Sem esse “imaginário” será um instrumento pouco útil, mesmo que seja a mais falada do hemisfério sul. Já o autor de O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo e de As memórias de um espírito encontra na língua portuguesa uma “fonte de riqueza” que nas suas ilhas se mistura com o crioulo. “Na minha casa o meu pai falava em português e minha mãe em crioulo. Eu nasci bilingue e quando cresci fiquei abismado ao descobrir que havia cabo-verdianos que não [o] eram”, explicou, dizendo que escreve em português sobre uma realidade e uma cultura que é a de Cabo Verde – a sua.

Para Germano de Almeida, conferencista transformado em contador de histórias para explicar que a língua portuguesa lhe é tão importante que chegou a acabar um namoro porque alguém lhe escreveu num papel “penço em ti” – “como poderia eu continuara a namorar uma mulher que escrevia ‘penso’ com ç?” -, o português é uma “ponte entre culturas”. Admitindo que o usa para escrever porque lhe é natural fazê-lo e lhe permite chegar a uma audiência mais vasta, mesmo quando isso lhe vale muitas críticas no seu país, o autor continua a defender o crioulo como “língua de intimidade”, feita para “trazer no dia-a-dia”: “O cabo-verdiano namora em crioulo. Não passa pela cabeça de um cabo-verdiano dizer ‘amo-te’ a uma mulher. ‘Amo-te’ é uma palavra violenta…”

Riqueza de sentidos
Palavras “violentas”, “formais”, uma “maneira de falar que fecha as vogais” e torna mais presentes as consoantes que, para um estrangeiro, são difíceis de dizer. Uma língua que resulta de “uma longa decantação”: “O português de Portugal pode ser uma língua dura, difícil. O do Brasil amacia-o, como o africano. Muda-lhe os ritmos e as entoações, junta-o às línguas indígenas para criar uma espécie de irradiação atlântica”, diz ao PÚBLICO José Miguel Wisnik, autor, compositor e professor de Literatura da Universidade de São Paulo, convidado do painel moderado pelo musicólogo Rui Vieira Nery.

“O português que se fala aqui é mais gutural, cria uma série de percussões surdas. O do Brasil estabiliza as vogais, o que deixa que as sílabas durem – é como uma orquestra em que se ouvem as cordas e os sopros”, explica o músico que também compõe para cinema, teatro e dança. “Mas todas as línguas inventam um modo de dizer.”

No caso do português, a ligação à música, seja ela erudita ou popular, faz parte da história da própria língua, lembra Wisnik, referindo-se às cantigas de amor e de amigo medievais. E se é verdade que há géneros musicais em que se torna mais difícil usá-la – “na tradição do bel canto a técnica foi optimizada para o italiano” -, outros há em que ela é tão natural como respirar, até pela sua “riqueza de significações”.

Para Alexandre Delgado, músico e compositor, autor das óperas O Doido e a Morte A Rainha Louca, para além da riqueza de sentidos há a considerar como enormes vantagens da língua portuguesa uma “rítmica natural altamente irregular” e uma “fonética variadíssima”, que torna fácil ao português falar outros idiomas porque conhece uma grande panóplia de sons e consegue imitá-los.

Quando compõe ou traduz libretos para português, Delgado diz ter sempre a preocupação de que as palavras sejam claras – “há contextos em que, se se deixa de perceber a linguagem, a música não faz sentido” – o que não se passa com muitos outros autores. Luís Tinoco, que também está habituado a compor para palco, é um deles. “Aceito que seja legítimo destruir as características da própria língua para fazer música, que se sacrifique a compreensão. Tão legítimo como fazer música para que se perceba cada palavra”, diz, reconhecendo que há línguas mais propícias a determinado tipo de música. “Não é por acaso que não há jazz em chinês e que uma música marcial casa muito bem com o alemão”, exemplifica o autor da ópera Paint Me (2010) e de partituras para textos de poetas e escritores como Álvaro de Campos (From the Depth of Distance) e Camilo Pessanha (Três Poemas do Oriente).

Para Tinoco, todo o compositor de música erudita é um optimista que procura um som – “qualquer som é musicável” – e um texto pode garantir, mais do que as palavras certas, uma atmosfera propícia ao nascimento de uma ideia: “Quando pego num texto estou preocupado com a forma como ele estimula a minha imaginação musical e não com o som das palavras escritas.” É por isso que defende que, por vezes, para trabalhar há que abdicar de aspectos estritos da cultura portuguesa. “A minha pátria língua está seguramente naquilo que é a herança que nos deixam os nossos escritores – a relação afectiva que consigo estabelecer com eles é irrepetível com autores estrangeiros.”

Uma canção livre
Na canção popular, e devido, talvez, à presença de Wisnik, o debate da Gulbenkian andou muito à volta das diferenças entre trabalhar o português do Brasil e o de Portugal e sobre a resposta à pergunta: “O que é que nasce primeiro – a letra ou a melodia?”

Tiago Torres da Silva, Pedro Silva Martins e Ângelo César (Boss AC) representaram os letristas e compositores portugueses, para quem a palavra pode funcionar como um gatilho ou ser o que mais pesa numa canção.

Silva Martins, compositor dos Deolinda, mas também de temas para os fadistas Ana Moura, Cristina Branco e António Zambujo, diz que procurar palavras para colocar nos intervalos que a música deixa é a parte “mais intensiva” do ofício de criar canções. É dele a expressão “palavra-gatilho” – a que faz despoletar toda a letra – e a ideia de que a melodia nasce primeiro porque “ela já traz uma história”: “Eu acredito que existe uma língua musical portuguesa que não precisa de palavras.”

Boss AC é um adepto da palavra. Embora já tenha composto para fado, o músico a quem se devem discos como Preto no Branco e Rimar contra a Maré, tem-se dedicado sobretudo ao rap e ao hip-hop, géneros em que “o português de Portugal é um desafio”. “O português de Angola também é muito mais musical que o daqui”, sublinha o compositor de origem cabo-verdiana. Boss AC começou por escrever em inglês, imitando os intérpretes que ouvia quando era ainda adolescente, mas rapidamente optou pela sua língua: “A música só faz sentido se percebermos tudo o que está a ser dito.”

Tal como o compositor dos Deolinda, Tiago Torres da Silva gosta de sublinhar a importância da palavra, sobretudo quando se trata de fado tradicional, género em que “é mais importante ouvir a voz do que a melodia”, mas dá prioridade à música. Escritor, encenador e letrista, diz que as palavras das canções ainda são vistas como “poesia menor” e que compõe com um pé em Alfama e outro em Ipanema. Quem olha para o seu percurso não tem qualquer dificuldade em acreditar nesta ponte atlântica que o faz falar de Chico Buarque e João Gilberto com a mesma intensidade com que cita Amália, o que leva Rui Vieira Nery a chamar-lhe o “Pedro Álvares Cabral da canção”, com David Mourão-Ferreira e Vinicius de Moraes no ADN.

Tiago Torres da Silva já escreveu para Teresa Salgueiro, Carminho, Maria João, Ricardo Ribeiro, Tereza Tarouca e Carlos do Carmo, mas também para Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Maria Bethânia, Daniela Mercury e Tito Paris. A língua portuguesa interessa-lhe, venha ela de onde vier, só é preciso levar em conta que “cada tipo de música tem um dialecto próprio”: “Há palavras que o fado não admite.”

A generalidade dos compositores brasileiros, explica o letrista, fazem a música primeiro, os portugueses querem musicar a letra. “A canção brasileira é, por isso, muito mais livre”. Seja como for, “escrever canções populares aprende-se na rua, nas casas de fado de Lisboa que não são para turistas ou nos botecos da Lapa do Rio de Janeiro”. Wisnik concorda. É na rua que a língua se usa sem constrangimentos, explorando os múltiplos significados em que o português é rico. Além disso, a música popular brasileira – a de Chico Buarque, “esse grande escritor de livros e de canções”, Caetano Veloso, João Gilberto, Noel Rosa, António Cícero e muitos outros – está “profundamente ligada à fala”. João Gilberto é a “figura-mestre” desta canção como lugar da palavra oral, em que a entoação é música.

Há canções, garante Wisnik, em a palavra recebe uma injecção de regularidade da música – e começa a entoar Garota de Ipanema, tema eterno de Vinicius e Tom Jobim, para exemplificar -; há outras em que se passa o contrário (desta vez evoca um samba de Noel Rosa que é “como uma conversa de botequim”). “Na ‘passionalizante’, diferente das outras duas, as sílabas estendem-se para explorar a música, do grave ao agudo” – e começa a cantar baixinho “Eu sei que vou te amar/Por toda a minha vida eu vou te amar”… Temas que fizeram da música brasileira um veículo único da transmissão do português pelo mundo, sublinha este professor que deu aulas de literatura nos Estados Unidos, onde muitos dos alunos que se inscreviam nas suas cadeiras o faziam para aprender a cantar.

“Há poesia que tem desejo de canção e outra que não. Num tema comoLíngua, de Caetano, se vê muito bem essa aproximação entre a canção e a oralidade; se vê muito bem a libido da língua portuguesa, uma língua que tem algo de carnal, que está ligada ao prazer, ao que comemos e ao gosto das palavras.” Talvez por isso Caetano cante “Gosto de sentir a minha língua roçar/ A língua de Luís de Camões”.

O jogo do gás natural entre Europa e Rússia

FONTE: BLOG INFOPETRO

http://infopetro.wordpress.com/2012/03/19/observatorio-de-geopolitica-da-energia-ii-o-jogo-do-gas-natural-entre-europa-e-russia/

Observatório de geopolítica da energia II: o jogo do gás natural entre Europa e Rússia

In gás natural on 19/03/2012 at 00:15

Por Renato Queiroz e Felipe Imperiano

O acesso  a recursos que revertam em  segurança energética  constitui-se em tema relevante nas pautas de política externa dos países. A concentração espacial de recursos naturais estratégicos para o desenvolvimento das nações e garantidores do nível de bem-estar de seus cidadãos tem consequências profundas no delineamento das políticas energéticas das nações. O uso de ativos energéticos como ferramenta de defesa de interesses políticos e econômicos não é algo novo no cenário internacional.

Um bom exemplo que se tornou emblemático para os estudiosos em geopolítica energética é a situação de dependência da Europa em relação ao  gás russo e, em contrapartida, como o gás natural é estratégico para o desenvolvimento econômico da Rússia. O Estado russo sempre se valeu de suas enormes reservas de óleo e gás. O país tem a sétima maior reserva de petróleo do mundo e a maior reserva de gás natural, isto é, 24% do total.  Em 2010 a Rússia foi ao mesmo tempo maior produtor de gás natural, alcançando a cifra de 637 bcm (bilhões de metros cúbicos), isto é, 19,4% do total produzido mundialmente, sendo ao mesmo tempo o número um em exportações (IEA, 2011).

A  Europa, ávida por energia, traçou planos para o suprimento ao seu mercado através de fontes longínquas de suas fronteiras. Os russos se mobilizaram e vieram construindo de forma gradual e persistente seus oleodutos e gasodutos em direção à Europa. A Rússia tem um planejamento nacional estratégico expansionista, baseado em  exportação de energia sendo, inclusive, o único exportador líquido de energia dos BRIC´s. O principal mercado para o gás russo é a Europa.

Como o crescimento do consumo de gás no continente europeu deve permanecer por longo período, essa dependência energética da Rússia deve ter vida longa segundo muitos analistas. A fatia da estatal russa Gazprom  no mercado europeu ultrapassa 50%.  Agravando essa dependência, surge a insegurança que ronda as decisões sobre o uso de plantas de geração de energia nuclear na Europa, o que coloca o gás natural como uma forte opção para atender a uma oferta perdida. Em adição, a crise econômica iniciada em 2011 deflagrou um processo de austeridade fiscal, o qual traz consequências importantes sobre a capacidade de financiamento de fontes alternativas de energia,  aumentando ainda mais a dependência da matriz europeia  ao  gás natural.  Logo, essa questão ganha contornos mais complexos no continente europeu, posto que o seu número de fornecedores é bastante reduzido.

Os russos sempre utilizaram as mais diversas estratégias para manterem seus negócios energéticos com a Europa. O subsídio da energia para os estados membros da antiga URSS já era uma prática comum antes mesmo da ascensão ao poder de Vladmir Putin na Rússia, por exemplo. Ainda hoje esse artifício é bastante usado pelo Kremlin. Nas recentes disputas pelo preço do gás com os países do leste europeu, foi oferecido o perdão da dívida em troca do monopólio da rede de dutos que passam por aqueles países para levar gás russo até o oeste europeu e assim aumentar o controle da Gazprom sobre o transporte do suprimento energético para a Europa.

Por um lado, se a Europa é bem dependente da energia proveniente da Rússia, por outro ela exerce importante papel na economia russa. A União Europeia não só é o principal parceiro comercial, como também a maior fonte de investimento direto estrangeiro (IDE) no país. Em 2008 o IDE da UE na Rússia atingiu US$ 43 bilhões, sofrendo uma substancial queda após a crise financeira mundial, porém se recuperando rapidamente e chegando ao patamar de US$ 34 bi já em 2010. Mas há gargalos de infraestrutura e de atraso tecnológico na Rússia.  O país necessita de fortes investimentos nessas áreas e de transferência  de  know-how ocidental, vital para que o seu setor energético não enfrente uma queda na produção, o que poderia afetar drasticamente o orçamento do Estado. Assim, o fluxo de recursos financeiros provenientes das vendas de gás para a Europa é vital.

Além disso, o preço pago pelo gás russo teve consideráveis elevações nos últimos anos,  aproximando-o do Gás Natural Liquefeito-GNL, o que fez com que este se tornasse mais competitivo. O gráfico abaixo apresenta a evolução dos preços do gás natural nos mercados, incluindo o do gás natural no Henry Hub.

Tal competitividade levou a Rússia a monitorar atentamente o mercado de GNL, desenvolvendo estratégias que impeçam que esse gás concorrente aumente a sua  participação no mercado energético europeu.  Como exemplo, em novembro de 2011, em Doha, no Qatar, na  1ª Cúpula de Países Exportadores de Gás Natural [1], os russos, representados pelo seu presidente Dmitri Medvedev, estiveram nessa cimeira com uma posição de defender seu mercado de gás. Afinal a expansão das plantas de GNL é uma forte ameaça para a manutenção do marketshare russo, podendo levar a uma perda de receita significativa.  A Rússia, assim, negociou com o Qatar, em troca de não aumentar o  fornecimento de GNL à Europa, o direito de investir no projeto Yamal que vai produzir gás natural liquefeito na península de mesmo nome  na Sibéria, uma espécie de embargo do GNL ao velho continente.

A Europa, no entanto, busca soluções de novas fontes de fornecimento de gás fora da Rússia. A região do Cáucaso e da Ásia Central se tornou a nova fronteira energética, sendo alvo de disputa por diversas potências. O Turcomenistão tem a quarta maior reserva de gás do mundo, o Cazaquistão a nona maior de petróleo. O Azerbaijão tem  reservas de gás comprovadas que totalizam cerca de 2,6 trilhões de metros cúbicos.  As perspectivas de  produção de gás no Azerbaijão em 2017 atingirão 30 bilhões de metros cúbicos,  e em 2025 – 50 bilhões. A Europa tem no “Corredor do Sul”, como é chamado o conjunto de projetos que pretendem ligar a região ao continente europeu, a sua principal alternativa para reverter o quadro delicado em que se encontra no campo energético.

O gasoduto Nabucco, por exemplo, é o projeto mais ambicioso e mais caro de todos. A base prevista de recursos são as reservas no Azerbaijão e Turcomenistão.  Esse  gasoduto transportaria gás da Ásia Central à Europa de forma a reduzir a dependência da energia russa. Há dificuldades ainda para a concretização do projeto. O gasoduto de grande extensão necessita de cerca de 14 bilhões de euros para o seu financiamento e  tem ainda um traçado que exige difíceis acomodações políticas. Essa indefinição faz com que os russos mantenham a determinação de influenciar o mercado europeu de energia.

Historicamente a região do Cáucaso e Ásia Central esteve sobre a égide russa. Logo, Moscou lança mão de todas as táticas para  manter a área dentro de seu controle político,  buscando inclusive estabelecer ações, para que  os fluxos de energia para a Europa sigam pela sua rede de transporte. Uma das manobras russas é enfraquecer o poder dos ucranianos que tem um histórico de colocar empecilhos técnicos e comerciais,  para que o gás russo, que passa pela Ucrânia, chegue à Europa. A Rússia, assim, buscou acabar com a sua dependência em relação ao gasoduto da Ucrânia. O projeto russo-alemão Nord Stream,  inaugurado em 2011, dá condições à Rússia de enviar gás natural diretamente para a Europa através de gasodutos submarinos construídos no Mar Báltico. Outra estratégia dos russos seria a construção do projeto South Stream nas águas territoriais turcas no Mar Negro. A Turquia já autorizou que os russos passassem o duto por suas águas territoriais. Esse projeto, se consolidado, permitirá que a Rússia atinja o sudeste europeu, podendo inviabilizar o projeto Nabucco.

Verifica-se que os russos estão acelerando suas ações para manter a condição de fornecedor principal de gás à Europa, afinal, além do GNL, um novo e forte concorrente bate à porta, querendo  entrar no jogo: o shale gás, ou seja, o gás recuperável nas rochas de xisto. Vale ressaltar que a Polônia, que se organiza para explorar  suas reservas de gás de xisto que beiram 5,0 trilhões de metros cúbicos,  pode reduzir a dependência de Moscou sobre a Europa.

O jogo do gás natural entre Europa e Rússia trará, no médio prazo, novas configurações. O aumento da oferta do gás natural seja convencional, shale gás, ou GNL mexerá no tabuleiro energético não somente da Ásia e Europa, mas também no âmbito mundial. Um dado curioso é comparar as reservas provadas de gás convencional que somam 6.608 trilhões de pés cúbicos-TCF( trillion cubic feet) ou seja,  cerca de 187 trilhões de metros cúbicos, segundo a BP,  e o volume de shale gas recuperável,  conforme estudo da EIA de 2011, que soma o mesmo nível do convencional, 6.620 TCF ou 187,4 trilhões de metros cúbicos.

Em suma a maior oferta de gás trará um alinhamento dos mercados. Esse cenário de gás abundante no horizonte de 20 a 40 anos (2030 a 2050) influenciará, certamente, os preços dos combustíveis fósseis e pode, inclusive, respingar no mercado das energias renováveis.


[1] A 1ª Cúpula de Países Exportadores de Gás Natural reuniu  Rússia, Argélia, Bolívia, Venezuela, Egito, Irã, Qatar, Líbia, Nigéria, Guiné Equatorial e Trinidad e Tobago. Estavam presentes como observadores a Holanda, a Noruega e o Cazaquistão. Esses 14 países controlam 70% das reservas mundiais de gás e mais de 80% da produção do gás natural liquefeito-GNL

Referencias Bibliográficas

BP Statistical Review of World Energy, 2011

IEA World Energy Outlook, 2011

EIA-DOE World  Shale Gas Resources: An Initial Assessment of 14 Regions Outside

Leia outros textos de Renato Queiroz no Blog Infopetro

Leia outros textos de Felipe Imperiano no Blog Infopetro

As liberdades vigiadas da Ucrânia e da Crimeia

Natural Gas pipelines from Russia into Europe (gif) [2252 x 1674]CLICK HERE FOR MORE MAPS!thelandofmaps.tumblr.com

 

O mapa e gráfico acima mostram a dependência dos países europeus (mas não só eles) do gás natural produzido na Rússia, e comercializado pela Gazprom. Note-se que tanto a Crimeia quanto a Ucrânia são pontos importantes em tal distribuição, pois é distribuidora através dos gasodutos que passam no território da Ucrânia e da República Autônoma da Crimeia.

Notemos que tanto a Ucrânia, quanto a Crimeia são pontos que igualmente participam de tal distribuição, mas, além disso a Crimeia é uma República Autônoma da Ucrânia. Na verdade a Crimeia era integrante da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), tendo sido transferida por Nikita Krushov para a Ucrânia em 1954 em razão da comemoração do 300º aniversário de unificação da Ucrânia e da URSS. Com a debàcle desta última, , a Crimeia declarou sua independência em 5 de maio de 1992 e mais tarde concordou em se tornar integrante da Ucrânia na condição de República Autônoma.No entanto a maioria da população é russa e não concordou com a situação proposta. Podemos dizer que esse é um pólo de permanente tensão entre a Ucrânia e Crimeia.

Além do que, no Mar Negro há uma forte base naval soviética, que atua quando há conflitos armados na região.

Por outro lado, a Ucrânia está praticamente dividida entre sua população de origem russa e de origem ucraniana, além de outras minorias. Também aqui há uma situação bastante tensa. Em outros termos, um barril de pólvora, cujo rastilho não é muito curto. Assim se tem uma ideia dos conflitos na Ucrânia, quando uma parte de sua população prefere fazer parte da Comunidade Européia e outra pretende manter-se sob a influência soviética.

Quanto à economia, a Ucrânia é a sétima produtora de aço do mundo.

Não se pode dizer, em meu entender, que especialmente a Crimeia não faça parte da Rússia. No entanto, par Putin, o que houve na Ucrânia foi um golpe de estado. Do ponto de vista de retaliação, seja dos mercados, seja de sanções econômicas, os dois lados perdem. Falar em intervenção militar é uma bobagem inominável por parte dos Estados Unidos e da OTAN.

Aposto que o único caminho possível é o diplomático, pois sanções econômicas podem levar simplesmente ao fechamento das torneiras que abastecem de gás natural a Comunidade Européia. Alguém vai ter muito prejuízo, mas, sem dúvida, ele será compartilhado de modo brutal entre possíveis vencedores e perdedores, se é que se pode usar essa terminologia no caso.

Enquanto a retórica diplomática e as ameaças econômicas buscarem resolver o assunto, além, é claro, dos mísseis, dos tanques, dos exércitos soviéticos, sabemos já que perdedor mesmo só haverá um: o povo. Famílias destruídas, velórios, assassinatos, de encomenda ou não e uma destruição absurda. Esses sim, como sempre, os verdadeiros perdedores. HILTON BESNOS.

 

Por que o Uruguai legalizou a maconha

LE MONDE DIPLOMATIQUE

http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1599

Por que o Uruguai legalizou a maconha

No dia 23 de dezembro de 2013, o presidente uruguaio José Mujica aprovou um projeto de lei para criar um mercado regulamentado e legal da maconha. Com a medida, ele tornou-se o primeiro chefe de Estado a legalizar a produção e a venda – em uma rede de farmácias – de uma droga proibida em toda parte

por Johann Hari

No México, fotos de desaparecidos revestem os muros tal qual uma campanha publicitária colossal de um traficante de humanos. Segundo a organização Human Rights Watch, mais de 60 mil mexicanos perderam a vida na “guerra às drogas”, deflagrada em 2006 pelo então presidente Felipe Calderón. O banho de sangue se alimenta de duas fontes cruzadas: de um lado, os Estados Unidos fornecendo dinheiro e armas na outra margem do Rio Grande para reprimir o tráfico de entorpecentes; de outro, os cartéis lutando pelo controle das rotas de distribuição.1 No dizer de Charles Bowden, a guerra às drogas se iguala à guerra pela droga. Ambas são igualmente letais.

Até recentemente, dominava certo fatalismo inspirado pela constatação de que a selvageria não poderia ser detida, apenas deslocada. Entretanto, há dois anos, dirigentes latino-americanos, entre os quais o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, têm procurado romper publicamente com o dogma repressivo e colocar em prática uma política diferente – a única, eles asseguram, capaz de erradicar o mercado da droga. É essa a postura que o Uruguai está tentando adotar. Seu presidente, José Mujica, é um dirigente atípico. Ex-guerrilheiro tupamaro da década de 1980, ele ficou preso no fundo de um poço por 2,5 anos. Depois de eleito, em novembro de 2009, desprezou a pompa do palácio presidencial, preferindo permanecer em sua pequena casa com teto de zinco, num bairro popular de Montevidéu. Destina 87% de seu salário de chefe de Estado a instituições de apoio a projetos sociais de habitação e, de bom grado, vai de ônibus a muitos de seus compromissos.

Origens da violência

Em julho de 2013, ele baixou uma lei autorizando adultos a cultivar e vender Cannabis em todo o território nacional. Os usuários passaram a poder obter sua erva favorita nas farmácias, limitados a 40 gramas por mês, ou a cultivar, por conta própria, até seis pés por residência. É a primeira vez que um país transgride frontalmente os tratados da ONU que proíbem o uso da maconha.

“Já faz mais de cem anos que, de um modo ou de outro, adotamos políticas repressivas em relação às drogas”, explica-nos Mujica. “E, passado um século, concluímos que essas práticas resultaram num fracasso incontestável.” O ministro da Defesa uruguaio, Eleutorio Huidobro – outro ex-tupamaro que ficou preso no fundo de um poço por vários anos –, nos faz uma síntese da tomada de consciência que levou o governo de seu país a dar esse passo histórico: “Se não fizéssemos isso agora, o que aconteceu com o México acabaria acontecendo em nosso país. E estaríamos em maus lençóis”. Na verdade, o Uruguai se situa numa das principais rotas continentais da droga, seguida pela cocaína boliviana e pela maconha paraguaia antes de tomar o rumo da Europa. Segundo o deputado Sebastián Sabini, um homicídio em três no país está associado ao narcotráfico.

É a política de proibição, insiste Huidobro, que criou o narcotráfico e a violência dela decorrentes: “Ao reprimir a legalização da marijuana, o que se faz é colocar os benefícios desse mercado nas mãos dos criminosos e transformar os traficantes em uma instituição superpoderosa”. Numa economia ilegal, os litígios não são resolvidos por um tribunal, mas pelo terror. Da mesma forma como a proibição da bebida concebeu Al Capone e o massacre do Dia de São Valentim,2 a gangue dos Zetas e a carnificina sem fim que enluta o norte do México são frutos naturais da proibição dos entorpecentes. “A guerra dos Estados Unidos à droga causa mais dano do que a própria erva”, enfatiza Huidobro. “Ela provoca infinitamente mais vítimas, infinitamente mais instabilidade. Ela coloca para o planeta um problema bem mais grave do que qualquer droga. O remédio é pior do que a doença.”

O governo de Mujica considera a erradicação do comércio de drogas uma utopia fantasiosa. O slogan da ONU – “Um mundo sem drogas. É possível alcançá-lo” – parece-lhe um grande absurdo. O chefe de gabinete da presidência, Diego Cánepa, defende que a alteração química da consciência é resposta a um desejo básico da espécie humana, manifestado em todas as sociedades conhecidas.

A mobilização de tropas tem como único efeito o deslocamento do tráfico em algumas centenas de quilômetros. Os especialistas o definem como “efeito balão”: quando se aperta o dedo no balão cheio de ar, a circunferência dele aumenta sob o efeito da pressão. Os locais de produção atacados na Colômbia reapareceram na Bolívia, as redes desmanteladas no Caribe se reconstituíram no México etc. No máximo, conseguimos afastar o problema em vez de extingui-lo.

A partir dessa constatação, Mujica concluiu que, “uma vez que o mercado já existe, é preciso regulamentá-lo, fazê-lo sair das sombras para tirá-lo dos traficantes”. Nos Estados Unidos, a legalização do álcool em 1933 pôs fim ao tráfico de destilados de má qualidade e aos assassinatos entre concorrentes. A Budweiser não é chegada à filantropia, mas pelo menos não defende sua fatia de mercado acabando com funcionários da Guinness. Da mesma forma, a legalização da maconha – e sua comercialização em farmácias estabelecidas legalmente – tira o pão da boca do crime organizado. Por outro lado, os impostos cobrados podem servir para financiar centros de tratamento para dependentes e programas de prevenção contra o consumo de tóxicos.

Os adeptos sul-americanos da legalização não estão pretendendo enaltecer os benefícios da maconha nem estimular o consumo – o presidente Mujica não hesitou em qualificar os usuários de drogas leves de nabos, termo pejorativo que significa literalmente “nabos”. Eles estimaram, em contrapartida, que um “baseado” não é mais nocivo do que um copo de bebida alcoólica e que, portanto, era preciso ajustar-se à situação.

Doces com psicotrópicos

Os reformistas uruguaios não ignoravam que iam bater de frente com a indignação dos adeptos da proibição. Por décadas, estes últimos acenaram com o espectro de que a legalização seria sinônimo de caos e depravação, que convidaria crianças a correr até a confeitaria da esquina para se abastecer de psicotrópicos − ao que os uruguaios retrucam que caos é o que o continente deles vive no presente momento. A reforma que defendem visa exatamente ao oposto: retomar o controle do mercado para poder dominá-lo. Segundo eles, os adolescentes serão os principais beneficiários. Sabe-se que o consumo regular de maconha pelos mais jovens pode alterar-lhes as faculdades mentais e que é vital dissuadi-los do consumo. Hoje, os jovens norte-americanos preferem a maconha ao álcool,3 pela simples razão de que um traficante raramente pede um documento de identidade ao cliente. Em contrapartida, o farmacêutico está mais inclinado a respeitar a lei, caso contrário pode perder sua licença.

Pelos quatro cantos do mundo, são numerosos os legisladores e representantes do aparato policial a reconhecer, em caráter privado, as vantagens da legalização. No Uruguai, eles o fazem abertamente e agem de acordo. Por que eles, por que aqui? Por que razões os obstáculos intransponíveis lá fora – a inércia, o medo de desagradar aos Estados Unidos, o temor da opinião pública – são mais fáceis de ser vencidos no Uruguai do que em outra parte?

São diversos os fatores que se combinam. O primeiro diz respeito ao vigor excepcional do movimento antiproibicionista, atiçado por uma série de injustiças ostensivas. Em abril de 2011, por exemplo, uma professora da academia militar, Alicia Garcia, de 66 anos, foi presa por cultivar alguns pés de Cannabis em sua residência. Ela encarou vinte meses de prisão por produção ilegal para uso comercial. Formou-se então, em torno dela, uma rede de apoio à qual se associaram os jovens parlamentares do Movimento de Participação Popular (MPP), o partido de Mujica, em defesa da legalização.

Ao mesmo tempo, a autoridade dos Estados Unidos em relação ao assunto começou a vacilar. Em 2013, os estados do Colorado e de Washington adotaram uma lei, aprovada por meio de referendo, que legaliza o uso, a produção e a venda da marijuana. As autoridades norte-americanas estariam, a partir de então, em situação menos vantajosa para coibir ou punir países desejosos de fazer o mesmo.

Enfim, a popularidade e a determinação do presidente uruguaio exerceram um papel fundamental. Sem dúvida, depois de sobreviver anos no fundo de um poço, fica-se mais bem equipado para resistir a pressões, tanto internas como externas.

Até hoje, entretanto, Mujica e seus aliados ainda não obtiveram êxito em persuadir a maioria de seus compatriotas, atraindo-os para a causa. Mesmo considerando que, ao longo do tempo, a legalização conta com uma adesão crescente, há ainda 60% de opiniões contrárias, segundo as pesquisas. Os oponentes alegam três objeções. Em primeiro lugar, o efeito de um ganho inesperado: “A partir do momento em que se legaliza uma droga, as pessoas passam a consumi-la em maior quantidade”, afirma a deputada Verónica Alonzo. O argumento parece sensato; no entanto, os fatos o contradizem. Na Holanda, onde a venda da maconha nos coffee shops foi autorizada em 1976 (as autoridades renunciaram a uma legalização formal para não transgredir abertamente os tratados da ONU), os usuários representam apenas 5% da população, contra 6,3% nos Estados Unidos e 7% no conjunto da União Europeia.4 A imagem de uma corrida às farmácias uruguaias parece assim algo fantasioso.

A legalização da cocaína?

O segundo medo é que a legalização da Cannabis incite os usuários a recorrer a drogas pesadas, especialmente a pasta-base, um derivado da cocaína comparável ao crack que faz estragos nas camadas menos favorecidas da população uruguaia. É a teoria chamada da “porta aberta”: um vício menor leva necessariamente a um mais grave. Raquel Peyraube, especialista no tratamento de toxicômanos, não acredita nisso, nem por um segundo. Segundo ela, é justamente o contrário: a proibição é que, por meio do monopólio que confere aos traficantes, orienta os usuários de maconha na direção de produtos mais perigosos. “No supermercado, compramos coisas de que não precisamos porque nos mostram ou porque as tornam atraentes para nós”, explica. “Da mesma forma, os traficantes vão tentar empurrar cocaína e outras substâncias para seus clientes. A proibição faz a cama das drogas pesadas.” A análise foi confirmada por um estudo recente realizado pela Open Society Foundations, a rede de fundações criada pelo milionário George Soros: ela verificou que a Holanda apresenta os índices mais baixos de toxicômanos da Europa, precisamente por ter mantido as drogas pesadas afastadas da maconha.5

Raquel também rechaça a ideia segundo a qual a legalização provocaria uma elevação dos casos de esquizofrenia. Se houvesse uma ligação entre a maconha e a aparição da doença, afirma, as taxas de esquizofrênicos teriam explodido ao longo das últimas décadas, já que é incontestável que o consumo de maconha não parou de crescer em numerosos países ou permaneceu estável. Segundo a médica, é possível, em contrapartida, que os esquizofrênicos consumam essa droga com mais frequência do que a média em função de seu efeito relaxante, o que explicaria a correlação.

A essas críticas junta-se outra, mais séria, que não deixa de sensibilizar certos membros da administração uruguaia. A maconha não passa de uma mercadoria entre outras no mercado de drogas ilícitas. Certamente a legalização vai reduzir o mercado, mas conserva intacto o comércio dos produtos mais rentáveis. Para abalar de fato o poder dos cartéis, o coerente seria ir mais além e regulamentar o circuito de todas as drogas cuja demanda é elevada. Com certas drogas, como o ecstasy e a cocaína, seria o caso de regular a venda; com outras, como a heroína, seria, sem dúvida, mais recomendável uma distribuição sob prescrição médica, conforme sugerem as experiências-piloto realizadas na Suíça.

“Vai levar algum tempo”, reconhece Sebastián Sabini, o representante do MPP mais envolvido com a reforma. “Mas quando chegar o dia, quando for a hora das outras drogas, estaremos prontos para defender nossa causa perante a população.” Aquele que os observadores consideram como o futuro sucessor do chefe de Estado já se pronunciou como favorável à legalização da cocaína.

Existe ainda uma alternativa? Qual é a vantagem em teimar em perseguir aquilo que Huidobro chama de uma guerra “já perdida”? Esperando que os políticos de seu país decidam reagir, a mexicana Emma Veleta chora o desaparecimento de oito familiares, sequestrados por traficantes com a provável cumplicidade das autoridades locais.6Conforme observado por David Simon, o criador da série televisiva The Wire, os Estados Unidos poderiam muito bem ser tentados a conduzir sua luta contra a droga “até o último mexicano”.

Johann Hari

Jornalista

Ilustração: Lorenzo Gritti

1 Ler Jean-François Boyer, “Mexico recule devant les cartels” [México recua diante dos cartéis], Le Monde Diplomatique, jul. 2012.

2 No dia 14 de fevereiro de 1929, a máfia de South Side, comandada por Al Capone, armou uma emboscada contra a de North Side, sob o controle de Bugs Moran, e assassinou sete de seus membros.

3 Tom Fielding, The candy machine: how cocaine took over the world [A máquina de doces: como a cocaína dominou o mundo], Penguin, Londres, 2009.

4 “Dutch fear threat to liberalism in ‘soft drugs’ curbs” [Holandeses temem ameaça ao liberalismo em freios às “drogas leves”], Reuters, 10 out. 2011.

5 “Coffee shops and compromise: separated illicit drug markets in the Netherlands” [Coffee shops e compromisso: mercados de drogas ilícitas separados na Holanda], Open Society Foundations, Nova York, jul. 2013. Disponível em: .

6 “La pesadilla de perder a toda su familia en Chihuahua” [O pesadelo de perder toda a família em Chihuahua], 28 maio 2012. Disponível em: .

7 David Simon, “A fight to the last Mexican” [Uma luta até o último mexicano], 10 jul. 2012. Disponível em: .

03 de Fevereiro de 2014
Palavras chave: DrogasMaconhaAmérica LatinaUruguaiviolênciatráficoliberalismoHolanda,mercadofinançascartéisHolandapsicotrópicosMéxicoautoridadepolíciaCannabis

La angústia de Casapueblo sin Carlos Páez Vilaró

G1 GLOBO NOTÍCIAS

http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2014/02/morre-o-artista-plastico-uruguaio-carlos-paez-vilaro.html

24/02/2014 10h59 – Atualizado em 24/02/2014 15h52

Morre o artista plástico uruguaio Carlos Páez Vilaró

Ele morreu aos 90 anos, em sua Casapueblo, de problemas no coração.
Pintor e escultor será velado em Montevidéu e enterrado na terça-feira.

O artista plástico uruguaio Carlos Páez Vilaró em Casapueblo, sua residência em Punta Ballena, em outubro de 2002 (Foto: AFP PHOTO/PANTA ASTIAZARÁN)

O artista plástico uruguaio Carlos Páez Vilaró em Casapueblo, sua residência em Punta Ballena, em outubro de 2002 (Foto: AFP PHOTO/PANTA ASTIAZARÁN)

O artista plástico uruguaio Carlos Páez Vilaró morreu nesta segunda-feira (24) aos 90 anos em sua casa de Punta Ballena, próximo ao balneário de Punta del Este, segundo sua secretária María Dezuliari informou à agência Efe. Ele era internacionalmente reconhecido por seus murais e pela incessante busca por seu filho desaparecido em um acidente aéreo na cordilheira dos Andes em 1972.

O pintor e escultor, que já havia operado várias vezes o coração, morreu em Casapueblo, edifício que construiu ao longo de décadas na confluência do Rio da Prata e do Oceano Atlântico e que tornou-se uma das principais atrações turísticas do país.

“Ele sofria de insuficiência cardíaca grave, seu coração estava muito ruim, tinha as átrios dilatados e lutou até o fim”, disse Dezuliari.

O corpo de Páez Vilaró será transferido nesta segunda a Montevidéu, onde será velado na Associação Geral de Autores do Uruguai, e será enterrado nesta terça-feira (25) em um local ainda a ser definido, de acordo com a Efe.

Influência africana
Ao longo da carreira, Vilaró dedicou-se sobretudo à representação da natureza e da comunidade afrodescendente sul-americana, depois de ter vivido vários anos na África.

O artista também é lembrado pela busca por seu filho após um acidente aéreo sofrido pela equipe de rugby do colégio Old Christians, no começo dos anos 1970, enquanto atravessavam a cordilheira dos Andes em direção ao Chile.

Após 72 dias perdidos nas montanhas, apenas 16 jovens dos 45 passageiros sobreviveram, entre eles seu filho.

Vilaró nasceu na capital uruguaia, Montevidéu, no dia 1º de novembro de 1923 e morreu em casa, também seu museu e ateliê, construída por ele mesmo em Punta Ballena e chamada Casapueblo, perto de Punta del Este.

Ele passou a juventude em Buenos Aires, onde foi aprendiz de tipógrafo, sua primeira experiência nas artes gráficas.

Mas na década de 1940 retornou a seu país e se dedicou à representação de tradições uruguaias, como o candombe e as comparsas, e dos escravos africanos no Uruguai.

Vilaró recebeu reconhecimento internacional por meio de várias premiações e um de seus principais murais, “Raíces de la Paz” (Raízes da Paz), considerada a maior pintura subterrânea do mundo, encontra-se na sede da Organização dos Estados Americanos em Washington.

Entre as suas obras, estão grandes pinturas encontradas em hospitais no Chile e Argentina, assim como nos aeroportos do Panamá e Haiti.

A Casapueblo em 2009 (Foto: Miguel Rojo/AFP)

A Casapueblo em 2009 (Foto: Miguel Rojo/AFP)

Foto de 15 de novembro de 2006 mostra visão parcial da Casapueblo, em Punta Ballena, no Uruguai, onde vivia o artista Carlos Paez Vilaró (Foto: Matilde Campodonico/AP)

 Foto de 15 de novembro de 2006 mostra visão parcial da Casapueblo, em Punta Ballena, no Uruguai, onde vivia o artista Carlos Paez Vilaró (Foto: Matilde Campodonico/AP)

O artista plástico uruguaio Carlos Páez Vilaró recebe homenagem de Hyara Rodriguez, prefeita de Montevidéu, em abril de 2010 (Foto: AFP PHOTO/Pablo PORCIUNCULA )

 O artista plástico uruguaio Carlos Páez Vilaró recebe homenagem de Hyara Rodriguez, prefeita de Montevidéu, em abril de 2010 (Foto: AFP PHOTO/Pablo PORCIUNCULA )
O artista plástico uruguaio Carlos Páez Vilaró participa de carnaval em Montevidéu em fevereiro de 2011 (Foto: AFP PHOTO/Pablo PORCIUNCULA)
O artista plástico uruguaio Carlos Páez Vilaró participa de carnaval em Montevidéu em fevereiro de 2011 (Foto: AFP PHOTO/Pablo PORCIUNCULA)

Menegat, LIAU e as cidades

Semana passada, quinta-feira, dia oito de novembro houve, aqui na Chico Mendes, uma formação de nota, talvez a melhor que eu já tenha assistido nessa escola: o Prof. Rualdo Menegat, doutor da UFRGS na área de Geociências e organizador do Atlas Ambiental de Porto Alegre, palestrou sobre autossustentabilidade das cidades e questões como meio-ambiente e educação.

Abordou alguns pontos fundamentais para o entendimento das mesmas como uma entidade que funciona em rede: as questões da forma da cidade, em especial as contribuições de Ur e das matrizes de cidades em forma de tabuleiro, adotadas pelos romanos, as cidades-estado dos gregos e tais contribuições para as cidades que foram surgindo em diversos pontos do mundo, como Paris, New Orleans, São Paulo, México, Rio de Janeiro e muitas outras.

Além disso, falou também sobre a distribuição do metabolismo das cidades, papel relevante do planejamento (na maior das vezes precária ou insuficiente) e do tratamento dos eflúvios, dos materiais não aproveitados pelas mesmas, no que concerne ao problema cada vez mais emergente referente ao lixo e à implantação de projetos que sejam socialmente e economicamente autossustentáveis; outro ponto abordado foi a cidade enquanto território e paisagem multicultural e cognitivamente ativo, dizendo das influências que as diversas culturas e comunidades emprestam às mesmas e, por último, como fecho, o Prof. Rualdo Menegat expôs suas idéias a respeito do que seria uma cidade cognitivamente significativa.

A palestra veio no bojo da expectativa de que esta escola crie seu LIAU – Laboratório de Inteligência de Ambiente Urbano, o que seria ótimo, visto que, por enquanto, temos notícia de que apenas outra escola do Município – EMEF Judith Macedo de Araújo possui um LIAU, projeto, aliás, desenvolvido especialmente pela excepcional Educadora de Geografia Cleonice G., que inclusive já ganhou um prêmio nacional (Professor Nota 10 da Revista Nova Escola da Abril Cultural) e da qual conto com amizade especial, desde quando trabalhávamos na EMEF Mariano Beck.

Alunos da Chico Mendes, participantes do projeto Com-Vida, tendo visitado a EMEF Judith Macedo de Araújo buscam agora, com o apoio de um pequeno grupo de professores, implantar o Laboratório aqui na Chico Mendes, o que, em meu entendimento, seria ótimo. No LIAU os próprios alunos são multiplicadores de conhecimentos sobre ecologia e sobre as questões que o Prof. Rualdo explicitou como problemas de metabolismo das cidades, ou seja, que destinos dar àqueles materiais que não são utilizados e que, muitas vezes sem tratamento, irão engrossas as toneladas de lixos em locais muitas vezes expostos à céu aberto.

São Paulo, por exemplo, já tem usinas de tratamento de lixo que, a partir do gás metano natural proveniente desse lixo, implementam a geração de eletricidade suficiente para dar conta da demanda de uma pequena cidade.Se isso, agora é apenas um sonho, por outro lado muitas famílias já vivem economicamente das possibilidades financeiras da reciclagem de materiais, inclusive de lixo. Aqui próximo, praticamente ao lado da EMEF Mariano Beck, há uma oficina de reciclagem, que traz oportunidade àqueles que lá trabalham de implementar uma renda que, não raro, atende a toda a família.

Projetos como o LIAU serão, em meu entendimento, sempre bem-vindos. São práticos, sustentáveis e ajudam a criar um espírito de significância ao entendimento da cidade como um organismo que, mais do que uma morada para milhares de pessoas, também deve receber um olhar mais atento para seu próprio funcionamento. E incentivar isso, através da educação, talvez seja uma das tarefas às quais mais deva se dedicar a escola, pelo seu efeito multiplicador e pela sua efetiva ajuda no que concerne a formar uma consciência cidadã e participativa.

Além do que, implementar soluções que possam aproximar a escola da comunidade sempre é algo que valoriza não somente a última, mas, especialmente a relação entre esta e o entorno social em que se encontra.Na mesma tarde, a Chico Mendes iniciou oficialmente seu projeto de separação do lixo seco e do lixo orgânico, com uma especialíssima atenção da Educadora Adriane, responsável por uma turma B 30 das séries iniciais da Escola. Presidente do Conselho Escolar, com seu trabalho motivou os alunos para que fizessem uma apresentação para a escola e, especialmente, trouxe à tona a importância de ações na escola, como a separação do lixo seco e orgânico, apontando para a influência que as próprias crianças podem ter na comunidade, inclusive em relação àquelas famílias que tem na coleta e na separação do lixo uma forma (muitas vezes a única) de renda.

Incentivar tais ações é prestar um pouco mais de atenção ao meio ambiente e buscar (in) formar ao educando que a consciência ecológica não é apenas um discurso, mas uma necessidade cada vez mais premente, por todos os motivos que conhecemos e que, aqui, é desnecessário discorrer.HILTON BESNOS